Canadenses veem agro brasileiro como modelo de eficiência

Os produtores vêm de uma área conhecida como Palliser Triangle

Canadenses veem agro brasileiro como modelo de eficiência
Ilustrativa

A visita de uma comitiva com 25 produtores rurais do Sul do Canadá ao Show Rural Coopavel, em Cascavel (PR), entre 9 e 13 de fevereiro, reforçou o peso internacional da feira e o interesse crescente de agricultores estrangeiros em entender, de perto, por que a agricultura brasileira virou referência em tecnologia, organização e escala. Ao longo da semana, caravanas de mais de 20 países circularam pelo evento em busca de soluções para produtividade e eficiência no campo.

Os canadenses integram uma associação de agricultores das províncias de Alberta e Saskatchewan — região conhecida pelo perfil técnico, forte gestão e tomada de decisão baseada em análise econômica detalhada das lavouras. O objetivo da comitiva, segundo John Hopkins, produtor rural e membro da PTMG, foi ampliar a visão sobre tecnologias, modelos produtivos e possíveis parcerias, com atenção especial a sistemas de manejo, mecanização e ao modelo cooperativista.

Os produtores vêm de uma área conhecida como Palliser Triangle, marcada por desafios climáticos e alta dependência de irrigação. A comparação com o Oeste do Paraná, onde a produção consegue manter ritmo mais contínuo, foi uma das principais impressões do grupo, na avaliação de Hopkins. “A gente esperava encontrar uma agricultura muito progressista, e ficamos realmente impressionados com o nível de plantio direto aqui e com o suporte de negócios que as cooperativas oferecem aos agricultores, além de uma indústria muito inovadora de máquinas e de suporte às cadeias de lavoura e pecuária”, disse.

Ao comparar os sistemas de produção, ele destacou a diferença climática como divisor de águas: “Sem dúvida, a maior diferença é a capacidade que vocês têm de produzir o ano inteiro, com boa precipitação — pelo menos nesta região do Paraná. Nós temos uma estação de crescimento curta e mais fria em Alberta, de apenas 120 dias, e baixa precipitação, em torno de 250 a 300 milímetros. Temos irrigação em algumas áreas, mas muitas vezes precisamos ‘esticar’ ao máximo os recursos hídricos.”

Plantio direto chama atenção

Entre as tecnologias e práticas vistas na feira, o plantio direto apareceu como ponto central — não como novidade absoluta, mas como uma referência de escala e adoção. “Muitas das tecnologias são parecidas com as nossas, mas eu acredito que várias regiões do Canadá poderiam avançar mais no plantio direto. A nossa maior necessidade é reduzir a erosão do solo pelo vento e também maximizar a eficiência do uso da água, diminuindo as perdas por evaporação”, afirmou Hopkins.

Mesmo em áreas irrigadas, ele aponta que a pressão por eficiência só aumenta: “Com a irrigação, estamos começando a perceber que, apesar de conseguirmos adicionar água às lavouras, ela está se tornando preciosa demais para ser desperdiçada. Então, reduzir o revolvimento do solo, quando possível, seria positivo. Mas algumas culturas nossas — como batata, beterraba açucareira e feijões secos para consumo — ainda exigem preparo do solo para garantir boa produção.”

Sustentabilidade

Na avaliação do grupo, Brasil e Canadá compartilham princípios de sustentabilidade e produtividade, mas com uma diferença clara na velocidade de adoção de práticas conservacionistas em determinadas regiões. “Somos muito parecidos nas práticas, com a diferença de que vocês estão bem à nossa frente no plantio direto. O solo é o nosso recurso número um nos dois países, e agricultores progressistas têm plena consciência disso”, disse.

Dos biológicos ao clima extremo

Ao falar de parcerias, Hopkins destacou oportunidades de aprendizado em áreas específicas — principalmente em controle biológico e no manejo de pragas e doenças. “Acredito que o Canadá tem muito a aprender com o Brasil sobre controle biológico de insetos e doenças. E, se algum dia o Brasil enfrentar uma nevasca, nós temos tecnologia para ajudar”, afirmou. Na avaliação do produtor, porém, os principais avanços no campo tendem a vir do aperfeiçoamento contínuo, com uma sequência de mudanças incrementais ao longo do tempo, e não de uma solução única ou imediata.

Após a passagem pelo Oeste do Paraná, o grupo seguiu viagem por áreas de soja, milho e algodão em Mato Grosso e, na sequência, deve conhecer mais de perto sistemas de produção de cana-de-açúcar e amendoim no estado de São Paulo, ampliando o olhar sobre diferentes realidades agrícolas brasileiras e cadeias produtivas com forte presença no mercado internacional.

Ao final, a mensagem do grupo foi de reconhecimento ao nível técnico e de incentivo à continuidade do intercâmbio de ideias. “Continuem com o excelente trabalho, em todos os aspectos do agronegócio. Compartilhar ideias sempre foi uma tradição dos agricultores — e isso trouxe a nós, à nossa indústria e aos nossos vizinhos um sucesso mútuo, como vemos hoje. Eu espero que essa tradição e esse sucesso continuem por muito tempo no futuro.”

MAIS
A vinda do grupo foi organizada pela Missão Viagens Técnicas, empresa liderada por Francisco Klein Silva, que atua há 15 anos promovendo viagens técnicas agrícolas, levando e trazendo produtores e lideranças do agro para todos os continentes, com foco em troca técnica, inovação e aproximação entre diferentes modelos de produção.