Laranja sente peso da safra cheia e do câmbio no preço do suco
Oferta voltou, o dólar não salvou e o mercado virou o jogo contra quem vende.
O mercado de suco de laranja entrou em 2026 com um movimento claro: preços em queda, tanto no físico quanto na bolsa internacional, puxados pela recuperação da safra brasileira e por um ambiente global mais pressionado. Para o produtor, o desafio agora é entender onde o preço realmente se forma e como safra e câmbio estão entrando na conta.
Depois de um período histórico de escassez e valores recordes, a laranja voltou a ser abundante. E quando isso acontece, o poder de barganha muda de lado. A indústria respira mais aliviada, enquanto o produtor sente o ajuste direto no bolso.
O que está acontecendo com os preços hoje
O recuo começou pelo mercado físico. A laranja destinada à indústria foi cotada a R$ 37,39 por caixa de 40,8 kg em 09/01/2026, segundo dados do Cepea/Esalq. Esse valor contrasta fortemente com o pico histórico de R$ 92 por caixa registrado em outubro de 2024. Ao longo de 2025, a correção foi contínua, com preços já em torno de R$ 50 por caixa no quarto trimestre.
No mercado internacional, o movimento foi o mesmo. Os contratos futuros de suco de laranja concentrado congelado (FCOJ) na Bolsa de Nova Iorque recuaram de forma expressiva. O contrato janeiro/26 fechou a 223,25 centavos de dólar por libra-peso em 09/01/2026. Março/26 está em 203,65 c/lb e maio/26 em 201,85 c/lb.
Para quem acompanha o histórico recente, o tombo chama atenção. Em 2024 e início de 2025, os preços passaram de USD 5 por libra-peso. Em abril de 2025, já haviam caído para perto de USD 2,11 por libra-peso. No físico internacional, o suco saiu da casa de USD 7.000 por tonelada para algo em torno de USD 3.500 no mesmo intervalo.
Safra 2025/26 mudou a relação de forças
O ponto central dessa virada está na recuperação da safra brasileira. O cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo Mineiro deve encerrar a safra 2025/26 com 295 milhões de caixas, segundo Rabobank e Cepea. Isso representa um crescimento de 28% em relação à safra 2024/25.
Em termos de suco, a produção estimada é de 993 mil toneladas de FCOJ, uma recuperação de 29% frente às 767 mil toneladas do ciclo anterior. Esse volume devolveu oferta ao mercado e reequilibrou a negociação entre produtor e indústria.
É verdade que o clima atrapalhou no meio do caminho. Chuvas abaixo do esperado e ventos fortes entre setembro e outubro de 2025 provocaram queda de frutos, reduzindo a projeção inicial que chegava a 306 milhões de caixas. Mesmo assim, o volume final foi suficiente para pressionar preços.
Na prática, o produtor sente isso quando a indústria passa a ter mais opções de compra, alonga contratos e endurece nas negociações. O mercado deixa de pagar prêmio pela escassez e volta a trabalhar com lógica de custo e margem.
Câmbio ajuda ou atrapalha?
O câmbio sempre entra na conversa quando falamos de suco de laranja, já que a exportação é dominante. Mas o ponto é que, desta vez, a pressão de preços não veio só do dólar.
Mesmo sem uma cotação específica de USD/BRL neste momento, os dados mostram que os preços em reais caíram 16,80% acumulado até dezembro de 2025, enquanto os futuros em dólar também recuaram de forma consistente. Isso indica que o problema é estrutural de oferta global, não apenas efeito cambial.
Na prática, mesmo que o câmbio ajude em algum momento, a recuperação de 29% na produção de FCOJ pesa mais. O real pode até amortecer a queda, mas não consegue inverter um mercado abastecido.
Demanda não acompanha a oferta
Do lado da demanda, o cenário também não anima. Nos Estados Unidos, o consumo em volume deve cair cerca de 8% na safra 2025/26. O consumidor segue pressionado por preços altos no varejo, mesmo com a queda das cotações internacionais.

Para ter ideia desse descompasso, o suco foi vendido a USD 11,75 por galão no varejo americano em setembro de 2025, valor 20% acima de setembro de 2024. Na Europa, a situação é parecida, com expectativa de retração de 8% no consumo.
Ou seja, a indústria paga menos pela matéria-prima, o suco cai na bolsa, mas o consumidor final ainda não sentiu esse alívio. Isso trava a retomada da demanda e mantém o mercado pressionado.
O que o produtor precisa observar agora
O balanço global deve fechar a safra 2025/26 com um superávit de 250 mil toneladas de FCOJ. Esse excedente limita qualquer reação mais forte de preços no curto prazo.
Olhando mais à frente, o mercado já começa a discutir 2026/27. A tendência de médio prazo ainda aponta desafios importantes, como avanço do greening, dificuldade de mão de obra e custos elevados. Mas, no curto prazo, o mercado só vai reagir se houver problema climático relevante no Brasil.
Na prática, o produtor precisa trabalhar com cautela, foco em custo de produção, planejamento financeiro e atenção redobrada às oportunidades de contrato. O momento não é de euforia, é de gestão.
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Quem entende o ciclo e se antecipa sofre menos quando o mercado vira.
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