Leite enfrenta inflação de insumos e aperto nas margens do produtor
Preço reage em alguns momentos, mas custo segue correndo na frente e exige decisão fina na fazenda.
O movimento central do mercado de leite hoje é claro. O preço ao produtor até mostrou reação pontual em alguns períodos, mas a inflação dos insumos, somada ao excesso de oferta em vários momentos de 2025, apertou as margens de quem está da porteira para dentro. O desafio imediato do produtor é simples de entender e difícil de resolver: vender melhor em um mercado pressionado e, ao mesmo tempo, segurar custo num ambiente em que ração e defensivos não dão trégua.
Como estão os preços do leite no mercado físico
Os dados do Cepea/Esalq mostram bem essa gangorra. A média Brasil do leite ao produtor, líquido, ficou em R$ 2,6492 por litro em janeiro de 2025, com alta de 2,5% frente a dezembro de 2024 e avanço real de 18,7% na comparação com janeiro de 2024, já deflacionado pelo IPCA. Esse movimento deu algum fôlego no início do ano passado.
O problema é que a sequência do mercado foi mais dura. Em outubro de 2025, o preço médio real caiu 21,7% frente a outubro de 2024, marcando a sétima queda consecutiva, muito ligada ao excesso de oferta. A média daquele mês foi de R$ 2,2996 por litro, também em valores deflacionados.
Regionalmente, os números mostram disparidades importantes. Em novembro de 2025, o leite pago ao produtor ficou em R$ 2,2340 em São Paulo, R$ 2,0616 no Paraná, R$ 2,0140 em Santa Catarina e R$ 2,0171 em Goiás, segundo o Cepea. Em Minas Gerais, as referências de novembro de 2025 giraram em torno de R$ 2,18 por litro. Já no Sudeste, levantamento do IMEA apontou R$ 2,55 por litro em 09/01/2026.
Na prática, o produtor sente isso no bolso quando olha o histórico recente e percebe que qualquer melhora pontual de preço ainda não foi suficiente para recompor o caixa perdido ao longo de 2025.
O que acontece na indústria e no atacado
O mercado industrial também ajuda a explicar esse cenário. Em outubro de 2025, os preços no atacado paulista, levantados pelo Cepea e deflacionados pelo IPCA, caíram de forma consistente. A muçarela foi negociada a R$ 30,05/kg, com baixa de 4,08%. O leite UHT ficou em R$ 4,03 por litro, queda de 5,62%, e o leite em pó foi cotado a R$ 29,37/kg, recuo de 2,9%.
Quando a indústria vende pior, a pressão inevitavelmente volta para o campo. Com estoques mais confortáveis e dificuldade de escoamento, o repasse de preços ao produtor fica limitado.
Custos de produção seguem corroendo a margem
Se o preço não anda com força, o custo segue firme. O Custo Operacional Efetivo médio do Brasil subiu 0,52% entre setembro e outubro de 2025, puxado principalmente pela alta dos defensivos, segundo o Cepea.
O ponto mais sensível continua sendo a alimentação do rebanho. Em outubro de 2025, o milho passou a exigir 28,4 litros de leite para a compra de uma saca de 60 kg, um aumento de 7,1% frente a setembro. O que muda a conversa é que esse indicador reflete diretamente o poder de compra do produtor, que se deteriorou ao longo do ano.
Na prática, isso significa margem mais curta, menor capacidade de investimento e necessidade de ajustes finos no manejo, na dieta e na escala de produção.
Oferta de leite, clima e o peso da safra
Do lado da oferta, 2024 foi marcado por problemas climáticos, com seca e calor afetando a produção em várias regiões. O ICAP-L recuou 0,7% entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, com quedas em estados como Goiás, Paraná, Minas Gerais e Bahia.
Mesmo assim, ao longo de 2025 a captação cresceu. O acumulado do ano mostrou alta de 13,6%, e a projeção do Cepea indicava crescimento de cerca de 7% no fechamento do ano, com produção estimada em 27,14 bilhões de litros.

Para 2026, o recado é de cautela. As análises do Cepea, divulgadas no início de janeiro de 2026, apontam crescimento da oferta entre 2% e 2,5%, o que mantém o mercado desafiador. A expectativa é de que uma recuperação mais consistente dos preços só apareça a partir do segundo bimestre, dependendo do comportamento do consumo e da indústria.
Importações, câmbio e pressão adicional
Outro fator que pesa na conta é o fluxo de importações. Em outubro de 2025, as compras externas de lácteos cresceram 8,4%, alcançando 214,73 milhões de litros em equivalente leite. Mesmo sem dados recentes consolidados de câmbio para 2026 nas fontes oficiais, o aumento das importações adiciona concorrência ao produto nacional e limita reações mais fortes de preço.
Para o produtor, isso reforça a necessidade de acompanhar não só o mercado local, mas também os movimentos externos que afetam a indústria.
Estratégias práticas para atravessar esse cenário
Com preço pressionado e custo alto, não existe bala de prata. O ponto é que algumas decisões ajudam a reduzir o impacto no caixa:
Revisar dieta e manejo, buscando eficiência alimentar e menor desperdício.
Trabalhar escala e qualidade, já que bonificações ainda fazem diferença no preço final.
Planejar compras de insumos, avaliando oportunidades de barter ou negociações antecipadas quando fizer sentido.
Controlar fluxo de caixa com rigor, priorizando investimentos que tragam retorno direto.
O produtor que conhece bem seus números consegue atravessar períodos de margem apertada com menos susto.
Decisão bem tomada no leite começa com custo na ponta do lápis e leitura correta do mercado.
Agronews








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