Etanol de milho muda dinâmica agrícola do Brasil
Demanda das usinas deve levar processamento de milho para quase 40 milhões de toneladas, enquanto cereal ganhará espaço sobre a soja no país
A expansão acelerada das usinas de etanol de milho deve levar o Brasil a processar quase 40 milhões de toneladas do cereal nos próximos anos, consolidando uma nova frente de demanda para o agronegócio e alterando a dinâmica agrícola em importantes regiões produtoras do país.
A avaliação é do presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), Paulo Bertolini, que vê no avanço das usinas uma mudança estrutural no mercado brasileiro de grãos, com impacto sobre o plantio, a rentabilidade do produtor e a cadeia de proteína animal.
Segundo ele, o volume atualmente destinado à produção de etanol já supera 20 milhões de toneladas, mas a expectativa do setor é de que esse número dobre nos próximos anos, impulsionado pela expansão das usinas em construção, em projeto e já em operação, incluindo unidades preparadas para processar sorgo.
“Rapidamente nós teremos quase 40 milhões de toneladas de milho sendo processadas aqui no Brasil para a produção de etanol”, afirmou durante o 4º Congresso da Abramilho, em Brasília.
O avanço da indústria ocorre em meio ao crescimento da demanda por biocombustíveis e à busca por alternativas de menor emissão de carbono na matriz energética. Além do etanol, o processamento do milho gera coprodutos utilizados na alimentação animal, especialmente o DDG (grão seco de destilaria), utilizado principalmente na nutrição de bovinos confinados e na pecuária leiteira.
Milho avança sobre soja em regiões produtoras
Na avaliação de Bertolini, a expansão das usinas já começa a alterar a dinâmica agrícola em algumas regiões produtoras, tradicionalmente dominadas pela soja na primeira safra.
Segundo ele, parte da produção de milho começa a avançar também sobre áreas de primeira safra, movimento impulsionado pela necessidade de abastecimento contínuo das usinas de etanol ao longo do ano.
“Tem regiões que o lucro com a atividade de milho é maior do que a atividade de soja”, afirmou.
O dirigente afirmou ainda que, em algumas regiões de Mato Grosso, o milho já supera a soja em volume produzido, enquanto o Paraná caminha para ampliar a participação do cereal nos próximos anos.
Na avaliação do setor, a demanda mais estável da indústria tem ampliado a previsibilidade de preços, estimulado contratos antecipados e aumentado a liquidez do mercado de milho.
“Esse casamento deu certo e veio para ficar”, afirmou Bertolini.
Dados divulgados nesta quinta-feira pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) reforçam o avanço do cereal no país. A estatal projeta produção total de 140,2 milhões de toneladas de milho na safra 2024/25, o equivalente à segunda maior colheita da série histórica.
Segundo a Conab, a primeira safra voltou a registrar crescimento de área em relação aos últimos anos.
O órgão também projeta produção de 7,6 milhões de toneladas de sorgo, com avanço expressivo da cultura no Centro-Oeste.

DDG fortalece pecuária de corte e leite
O avanço do etanol de milho também vem ampliando a oferta de DDG, coproduto altamente proteico utilizado na nutrição animal. Segundo Bertolini, o DDG tem contribuído para intensificar sistemas de produção pecuária, especialmente confinamentos de bovinos de corte e leite.
“O DDG propicia e viabiliza a intensificação dos confinamentos, principalmente na pecuária de corte e na pecuária leiteira”, destacou.
A avaliação apresentada pelo dirigente é de que o crescimento das usinas gera benefícios além da produção de combustível renovável, ampliando a previsibilidade e a liquidez para o setor agropecuário.
Bertolini afirmou ainda que o DDG vem ganhando espaço na cadeia de nutrição animal por seu elevado teor proteico e pela capacidade de agregar valor à produção de etanol.
“O DDG é altamente proteico. Ele faz uma nutrição especial e tem intensificado inclusive a pecuária de corte”, disse.
China amplia mercado para DDG e sorgo
O setor também aposta no avanço do sorgo dentro da cadeia do etanol. Algumas usinas já estão adaptadas para o processamento do cereal, movimento que pode ampliar alternativas de matéria-prima e fortalecer a produção em regiões de clima mais restritivo ao milho.
Além do mercado interno, a indústria vê espaço para expansão das exportações de coprodutos. Bertolini destacou que a China abriu recentemente seu mercado para o DDG brasileiro e para o sorgo nacional, o que, segundo ele, pode fortalecer o comércio bilateral nos próximos anos.
“O sorgo produz um DDG também altamente proteico, que tem um valor interessante no mercado internacional”, afirmou.
Segundo Bertolini, o sorgo também vem ganhando espaço como alternativa produtiva em regiões sujeitas a restrições climáticas, por apresentar maior tolerância à seca e menor custo de produção.
Na avaliação do dirigente, a abertura do mercado chinês pode ampliar a demanda pelo cereal nos próximos anos, em meio ao crescimento do consumo de alimentos e proteínas no país asiático.








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