Calor desafia a produção de leite e reforça a importância do bem-estar animal

Da experiência de uma pequena propriedade familiar a sistemas de alta produtividade, o calor segue como um dos principais desafios da pecuária leiteira, exigindo ajustes constantes em manejo, genética e infraestrutura.

Calor desafia a produção de leite e reforça a importância do bem-estar animal
Ilustrativa

A trajetória de Camila e Thiago Benetti na produção de laticínios começou de forma inusitada: com um presente de casamento. O casal recebeu uma vaca da raça Holandesa que quase não produzia leite. Com uma lesão no ubre e apenas três tetas funcionais, o animal era considerado praticamente de descarte, e a intenção do antigo dono era que fosse abatido para um churrasco.

Apesar disso, Camila e Thiago se apegaram à vaca, batizada inicialmente de Cacundinha, e decidiram tentar recuperá-la. Com o apoio de um vizinho, aprenderam a tratá-la e a manejar a ordenha. Aos poucos, a produção evoluiu: de apenas dois litros por dia, a vaca chegou a produzir até 24 litros em seu pico. Foi assim que, há 13 anos, começou a história do casal na atividade leiteira.
“Começamos a alimentar, tratar e tirar leite. Depois quiseram ela de volta, mas dissemos que presente não se devolve”, relembra Camila, engenheira agrícola.

Com o tempo, Cacundinha passou a ser chamada de Pretinha, em função da pelagem. A experiência marcou o início da atividade que hoje sustenta a propriedade da família, localizada em Glorinha, na Região Metropolitana. A vaca precursora já morreu, mas o legado permanece. Atualmente, o casal conta com 12 bovinos leiteiros e com o apoio dos filhos nas atividades diárias.

A produção média chega a 250 litros de leite por dia, mas nos períodos de calor intenso esse volume pode cair para cerca de 90 litros. “Para nós, que temos uma produção pequena, é uma redução bastante significativa”, observa Camila.

Atentos ao bem-estar animal, os produtores identificam o calor como um dos principais desafios da atividade. Na propriedade, o gado conta com sombra natural, por meio de árvores, e acesso livre à água. Thiago Benetti, que é físico, passou a estudar e se especializar na criação de vacas leiteiras. A partir da observação do comportamento dos animais, decidiu gradualmente substituir a raça Holandesa pela Jersey. “A Holandesa sofre muito mais com o estresse térmico pela genética. A Jersey tem melhor aclimatação”, explica.

Além disso, o leite da raça Jersey apresenta maior teor de gordura e proteína. Benetti destaca que animais maiores consomem mais alimento e produzem mais calor durante a digestão. “A Holandesa, por exemplo, é um animal gigante. A Jersey é menor e produz menos calor, consequentemente”, esclarece.

Nos episódios de estresse térmico, segundo ele, as vacas tendem a colocar a língua para fora e a respirar de forma mais intensa, em uma tentativa de se resfriar. Por isso, sombra e hidratação são fundamentais para reduzir os impactos do calor.

Perda produtiva pode chegar a 10 litros diários por vaca

Em propriedades com maior escala e produtividade, os efeitos do calor também são expressivos. Durante os picos de temperatura, a produção pode cair entre 4 e 10 litros de leite por vaca.

A produtora Margareth Strobel observa que, a partir dos anos 2000, a genética dos animais evoluiu significativamente. “A produção aumentou. Quanto mais elas se alimentam, mais produzem calor”, explica. Em sua propriedade, localizada em Condor, o rebanho 100% da raça Holandesa produz cerca de 45 mil litros de leite por dia.

“A gente tenta fazer tudo para não reduzir. Mudamos a dieta, usamos aspersão (de água) para o conforto dos animais, mas a média de redução por vaca é de 5 litros por dia”, destaca, lembrando que, dependendo das condições, pode chegar até 10 litros por unidade.

Em outra propriedade, em Vila Lângaro, o gestor financeiro João Vitor Secco destaca que o impacto do calor varia conforme o sistema adotado. “Em 2024, tivemos uma queda do inverno para o verão em torno de 4 litros por vaca. Já neste verão de 2025, após ajustes no sistema de resfriamento, conseguimos melhorar bastante”, explica.

Segundo Secco, atualmente a produção está cerca de 8 litros por vaca acima do verão anterior, com expectativa de um aumento adicional entre 4 e 10 litros por vaca no próximo inverno. A média atual é de 49 litros por vaca, em um sistema de confinamento do tipo Compost Barn, com 84 animais em lactação e ordenha robotizada. “Quanto menos se perde no verão, maior tende a ser a produção no inverno”, resume.

As informações são do Correio do Povo, adaptadas pela equipe MilkPoint.