Ciclone bomba no RS: tornado e ventos de 120 km/h provocam mais destruição no estado
Formação de supercélula e ciclone extratropical geram novas tempestades severas no estado, deixando desabrigados, transtornos na infraestrutura e um óbito.
A tarde e a noite de quinta-feira, 6 de agosto de 2026, foram marcadas por momentos de extrema apreensão no Rio Grande do Sul. A confirmação de um tornado na cidade de Pedro Osório, na região Sul gaúcha, concretizou as previsões meteorológicas emitidas ao longo da semana.
Moradores registraram em vídeo o momento em que um largo funil se desprendeu da base das nuvens e tocou o solo, com imagens que mostraram inclusive o início da formação de múltiplos vórtices giratórios. Este foi o segundo fenômeno do tipo registrado no estado em apenas duas semanas, integrando um quadro de tempo severo que espalhou rajadas de vento avassaladoras por diversas regiões.
Foto: reprodução/ redes sociais
Por trás desse evento esteve o surgimento de uma supercélula, que encontrou condições propícias para se desenvolver devido à intensa instabilidade atmosférica sobre o Rio Grande do Sul, o Uruguai e o norte e leste da Argentina. O cenário foi impulsionado pelo processo de formação de um ciclone extratropical no oceano, entre o litoral gaúcho e uruguaio, associado ao avanço de uma frente fria.
A tempestade foi alimentada por uma queda na pressão atmosférica no fim da tarde, além do encontro entre o ar quente que cobria o Sul do Brasil, o Paraguai e o norte argentino com a massa de ar frio que avançava pelo Uruguai e Argentina. A combinação entre alta umidade, variação de velocidade e direção do vento em diferentes altitudes criou um ambiente perfeito para o choque meteorológico.
Conforme as áreas de tempestade se espalharam durante a noite, ventos com velocidade superior a 100 km/h atingiram várias localidades. Porto Alegre registrou a maior rajada do estado, alcançando 120,4 km/h. O vento forte também se fez presente de forma intensa em Canoas, com 113 km/h, Parque Eldorado, com 107 km/h, Arroio Grande, com 106,4 km/h, Charqueadas, com 104 km/h, e Pelotas, com 88,9 km/h. Diante do agravamento da situação, a Defesa Civil enviou por volta das 20h15 um alerta vermelho diretamente para os celulares dos moradores da Região Metropolitana, sinalizando o risco de tempestade e rajadas acima de 90 km/h.
Pelo menos 121 pessoas precisaram deixar suas casas e foram acolhidas em abrigos públicos espalhados pelo estado. Entre os municípios com moradores desabrigados, Cachoeira do Sul contabilizou 35 pessoas, Uruguaiana registrou 32, Lajeado somou 24, Encantado acolheu 16, São Borja teve 7, Alvorada registrou 6 e Nova Santa Rita teve 1 desabrigado. Além do vento, os volumes de chuva foram expressivos, ultrapassando 40 milímetros em algumas áreas, com destaque para o município de Quaraí, que acumulou 40,2 mm em um intervalo de poucas horas. Pelo menos oito cidades oficializaram relatos de estragos à Defesa Civil ainda durante o início da noite.
Os prejuízos na infraestrutura urbana e nos serviços essenciais afetaram milhares de cidadãos. Em Pelotas, parte do muro do pátio do presídio local desabou com as rajadas de vento, exigindo o reforço na segurança por parte das forças policiais e o envio de equipes de engenharia para avaliação. Na Região Metropolitana de Porto Alegre, uma árvore caiu sobre a rede elétrica da Trensurb na altura de Sapucaia do Sul, forçando a paralisação total das operações dos trens no início da noite, serviço que foi restabelecido nas primeiras horas da manhã seguinte. Em Esteio, uma estrutura instalada no Parque de Exposições Assis Brasil, local que recebe a Fenasul Expoleite e Expointer, não suportou a força do vento e veio abaixo.
Foto: G1
Na capital, o telhado de um prédio que abrigava residências e estabelecimentos comerciais foi arrancado pela ventania, e tapumes instalados no entorno de uma escola na Avenida Érico Veríssimo foram derrubados. A falta de energia elétrica comprometeu a operação de estações de bombeamento, levando o Departamento Municipal de Água e Esgotos a alertar sobre a possibilidade de desabastecimento ou baixa pressão em até 43 bairros de Porto Alegre.
A tragédia mais grave da noite ocorreu em Montenegro, na rodovia RS-124, onde um motociclista de 33 anos morreu após ser atingido por uma árvore derrubada pela tempestade. Embora as linhas de instabilidade mais pesadas tenham começado a se afastar do território gaúcho, os ventos persistentes continuam exigindo atenção das autoridades e da população.
Fonte: Climatempo
Produtor registrou avanço da tempestade
Diante da fúria do tornado em Pedro Osório, relatos começam a surgir. O produtor rural Frederico Gatto precisou buscar abrigo às pressas em um galpão para se proteger do funil que avançava sobre sua propriedade na tarde de quinta-feira. Ele conseguiu registrar a aproximação do fenômeno em vídeo antes de se esconder. "Foi muito assustador, muito assustador. A gente conseguiu filmar, depois ele foi se afastando mais da fazenda e começou a chover bastante. A gente não via mais se ele estava ainda ou se já tinha se dissipado", relata Gatto.
O produtor descreve que, mesmo após a chuva inicial acalmar, a tensão continuou na fazenda. "Aí parecia que tinha um se formando bem em cima de nós. Tinha umas nuvens muito estranhas, muito rápidas bem onde nós estávamos. Aí nos protegemos dentro do galpão. Nem filmamos essa parte que foi quando deu mais vento ali onde nós estávamos. Mas ninguém se machucou, estamos todos bem", conclui Frederico Gatto.
Vídeo: Frederico Gatto / redes sociais
Impactos na produção leiteira
Os sucessivos temporais e a alta umidade da semana passada causaram severos prejuízos à pecuária leiteira gaúcha, de acordo com dados da Emater/RS. A sequência de dias chuvosos, com pouca luminosidade e grande acúmulo de lama, dificultou o deslocamento dos rebanhos até os pastos e às salas de ordenha, elevando o estresse dos animais e aumentando a incidência de mastite e infecções nos cascos.

Para contornar a menor oferta de forragem e o encharcamento do solo, pecuaristas de várias regiões precisaram reforçar a alimentação no cocho com silagem, feno e ração concentrada. Enquanto regiões como Erechim, Ijuí e Pelotas conseguiram sustentar a produção em patamares estáveis — apesar dos maiores custos operacionais, cuidados sanitários redobrados e quedas na rede elétrica —, locais como Santa Maria amargaram nova queda no volume produzido devido à menor ingestão de matéria seca pelos animais. Em São Gabriel, na região de Bagé, a produção permaneceu muito baixa em virtude do crescimento limitado dos campos nativos e do baixo uso de suplementação suplementar.
O cenário foi ainda mais dramático no noroeste do estado, na região de Santa Rosa, onde a chuva intensa aliada a tempestades de granizo trouxe graves prejuízos operacionais e estruturais. No município de Ubiretama, as pedras de gelo destruíram telhados de galpões de alimentação, salas de ordenha e depósitos de suprimentos, além de rasgarem as lonas de vedação das silagens. O evento gerou forte estresse no rebanho e provocou a morte de um animal jovem.
Diante do excesso de lama nas áreas de acesso aos piquetes, os produtores locais precisaram intensificar a higienização durante o processo de ordenha e aplicar um manejo rígido no pastejo rotacionado para evitar que o alimento fosse perdido pelo pisoteio, evidenciando como a severidade do clima tem impactado profundamente a rotina e a sustentabilidade do setor produtivo no interior gaúcho.
Inmet emite alerta para 11 estados
- Alerta amarelo: ventos de 40 a 60 km/h. Alerta válido para os estados de Bahia, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo. O Inmet indica há baixo risco de queda de galhos de árvores.
- Alerta laranja: ventos de até 100 km/h. O Inmet alerta as áreas dos estados do Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Válido durante toda a sexta-feira (7 de agosto) e indica risco de queda de árvores, destelhamento de casas e danos em edificações e lavouras.
Foto: Inmet
Artigo escrito com informações da Climatempo, G1, Emater/RS e Inmet.












