Iluminação inteligente: como a luz vermelha impacta o período seco?

Entenda como a iluminação adequada no período seco influencia saúde, metabolismo e lactação.

Iluminação inteligente: como a luz vermelha impacta o período seco?
Ilustrativa

Diferente do que muitos produtores de leite imaginam, a luz vermelha utilizada nos galpões não está relacionada apenas ao conforto visual das vacas. Seu principal papel está ligado à regulação de um dos sistemas mais importantes do organismo animal: o ritmo circadiano, responsável por sincronizar funções hormonais, metabólicas e imunológicas.

Estudos científicos e experiências práticas em fazendas leiteiras demonstram que o uso da luz vermelha durante o período seco exerce impacto direto sobre a fisiologia das vacas, a saúde metabólica e o desempenho produtivo da lactação seguinte. Essa estratégia, já adotada em sistemas intensivos da Europa e dos Estados Unidos, começa a ganhar espaço no Brasil ao combinar bem-estar animal, manejo inteligente e ganhos zootécnicos mensuráveis.

Como a luz vermelha interfere no organismo das vacas?

O ritmo circadiano é regulado principalmente pela glândula pineal, responsável pela produção da melatonina, conhecida como o “hormônio do escuro”. Em condições naturais de ausência de estímulo luminoso inadequado, a melatonina é liberada e atua em diversos processos fisiológicos do organismo.

Pesquisas conduzidas por universidades norte-americanas e europeias, com resultados publicados em periódicos como o Journal of Dairy Science, mostram que a luz branca e a luz azul inibem a produção de melatonina, mesmo quando utilizadas em baixa intensidade. Já a luz vermelha não bloqueia essa produção, permitindo que a vaca mantenha um estado fisiológico noturno, mesmo durante manejos realizados à noite no curral ou no free stall.

Na prática, isso significa que o organismo da vaca “entende” que ainda está em período de repouso, o que reduz respostas de estresse e preserva funções metabólicas essenciais.

A manutenção adequada da produção de melatonina durante o período seco tem efeitos diretos e indiretos sobre a saúde das vacas. Pesquisas experimentais indicam que animais mantidos em condições que preservam o ciclo natural desse hormônio apresentam maior sensibilidade à insulina, reduzindo o risco de balanço energético negativo no início da lactação, melhor metabolismo do cálcio, menor incidência de hipocalcemia clínica e subclínica, além de resposta imunológica mais eficiente e menores níveis de cortisol, hormônio associado ao estresse.

Em contraste, vacas expostas continuamente à luz branca ou azul durante a noite demonstram maior desregulação hormonal e maior incidência de distúrbios metabólicos.

Por que o período seco é tão sensível?

O período seco, geralmente entre 45 e 60 dias antes do parto, é considerado uma das fases mais críticas da vida produtiva da vaca leiteira. É nesse intervalo que ocorre a regeneração do tecido mamário, a adaptação metabólica para o início da lactação, a preparação do sistema imunológico e ajustes importantes no metabolismo do cálcio e da glicose.

Estudos comparativos indicam que falhas no manejo durante esse período aumentam significativamente o risco de doenças no pós-parto, como cetose, hipocalcemia (febre do leite) e metrite.

Os benefícios do uso da luz vermelha no período seco não se restringem à saúde animal. Dados de campo e estudos controlados apontam impactos claros sobre a produção de leite. Sistemas que adotaram iluminação vermelha para o manejo noturno de vacas secas observaram melhor pico de lactação, com incrementos médios entre 4% e 8% na produção inicial, maior persistência da lactação, menor descarte involuntário associado à redução de doenças no pós-parto e melhor eficiência alimentar, reflexo de um metabolismo mais equilibrado.

Esses resultados reforçam um conceito já consolidado na ciência leiteira: o sucesso da lactação começa no período seco.

Outro ponto relevante é o aspecto operacional. A luz vermelha permite a realização de manejos noturnos, como inspeções, tratamentos ou movimentação de animais, sem interromper o estado fisiológico de repouso das vacas. Diferentemente da luz branca, que estimula o organismo, a luz vermelha mantém condições semelhantes ao escuro, evitando picos hormonais indesejados.

Tendência global e aplicação no Brasil

A adoção de estratégias de iluminação inteligente integra um movimento mais amplo de zootecnia de precisão e bem-estar animal, já consolidado em grandes bacias leiteiras internacionais. No Brasil, o tema começa a ganhar atenção especialmente em fazendas de alta produção, sistemas confinados e compost barn, propriedades que buscam reduzir perdas no pós-parto e projetos focados em longevidade e eficiência produtiva.

Especialistas destacam que o investimento necessário é relativamente baixo, sobretudo quando comparado aos custos associados a doenças metabólicas e à queda de produção na lactação seguinte.

A ciência mostra que pequenos ajustes no ambiente podem gerar grandes impactos no desempenho das vacas leiteiras. O uso da luz vermelha no período seco não é uma solução isolada, mas uma ferramenta estratégica dentro de um manejo bem planejado. Ao respeitar o ritmo biológico dos animais, o produtor ganha em saúde, produtividade e sustentabilidade do sistema, reforçando que tecnologia no campo vai muito além de máquinas — ela começa pela compreensão da biologia animal.

As informações são do Compre Rural.