A confusão das carnes brasileiras no comércio internacional
Em artigo, o pecuarista e ex-secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura, Pedro de Camargo Neto, analisa as diferentes regras e barreiras enfrentadas pelas carnes brasileiras nos principais mercados internacionais.
Por Pedro de Camargo Neto*
O Brasil é uma potência mundial em proteínas animais. Cada carne encontra uma porta diferente nos grandes mercados. Bovinos, aves e suínos chegam a dezenas de países. Seria razoável imaginar que, depois de tantas décadas de comércio, fosse simples dizer quais mercados estão abertos e quais estão fechados.
Não é. Existe uma verdadeira confusão das carnes.
A União Europeia é nosso mercado mais antigo entre os grandes compradores e continua sendo um dos mais difíceis. Os Estados Unidos estão entre os mais recentes mercados relevantes abertos à carne bovina brasileira in natura e ganharam rapidamente importância. A China, de longe nosso maior comprador, aumentou suas importações tão rapidamente que acabou recorrendo a salvaguardas para contê-las.
São três histórias muito diferentes.
A Europa compra carne brasileira há décadas, inclusive cortes bovinos de elevado valor, mas nunca foi propriamente um mercado aberto. Tarifas, cotas, rastreabilidade e sucessivas exigências sanitárias limitaram o acesso. Décadas atras, as visitas periódicas dos veterinários europeus, avaliando a questão da febre aftosa, representavam permanente ameaça de perdermos o que era o principal mercado, onde exportávamos por ano, o que hoje exportamos em semanas. Pressionou a organização sanitária levando a hoje ser livre do vírus.
O acordo Mercosul–União Europeia melhora as condições. Prevê, por exemplo, cota de 99 mil toneladas para carne bovina, 180 mil para aves e 25 mil para suínos, mas está longe de representar livre comércio.
Há um precedente importante. Na esteira da crise da encefalopatia espongiforme bovina, a BSE ou “doença da vaca louca”, a União Europeia elevou fortemente suas exigências de identificação e rastreabilidade dos bovinos. Para continuar atendendo aquele mercado, o Brasil desenvolveu o SISBOV, sistema de identificação individual e certificação de origem que permite rastrear os animais destinados aos mercados que exigem esse atributo.
A resposta na época foi pragmática. Não foi necessário impor exatamente o mesmo sistema a toda a pecuária brasileira. Criou-se uma estrutura capaz de identificar, segregar e certificar a produção destinada ao mercado que fazia a exigência. Esse precedente é particularmente útil diante do problema atual dos antimicrobianos.
As novas exigências europeias relativas ao uso de antimicrobianos eram conhecidas há anos e passaram a ser aplicadas em setembro. O Brasil não conseguiu demonstrar a tempo o atendimento das condições necessárias para manter normalmente o acesso de diferentes proteínas animais.
Podemos discutir se a exigência europeia é tecnicamente adequada e se o Brasil deveria aplicar internamente as mesmas restrições. São discussões legítimas. Outra coisa é querer vender. O comprador estabelece seus requisitos e cabe ao fornecedor decidir se quer atendê-los.
Governo e setor privado tiveram tempo para se preparar. Porque não fizeram é outra história que não consigo explicar. Acompanhei décadas restrições sanitárias ao comercio, primeiro no FUNDEPEC, depois na ABIPECS. Hoje distante, não consigo entender por o Brasil se deixou encontrar em tamanha confusão. Regra interna desde 2022, formalizada para terceiros países em Regulamento de 2023, com aviso claro desde 2019.
O Brasil ignorou. Uruguai e Argentina se prepararam e seguem exportando. Por que ignorou? Quem ignorou? É simplismo colocar a culpa só no governo. O setor privado tem obrigação de acompanhar esse tipo de tema, e sempre acompanhou. Por que ignorou? Acreditaram que a UE cederia, quando não cedeu no passado? Como deixaram acontecer? Pior, reagiram muito mal, tanto o setor privado, como o Poder Executivo.
Os Estados Unidos contam uma história quase oposta.
Anos de seca em importantes regiões produtoras levaram à redução do rebanho bovino americano. Em julho deste ano, os Estados Unidos tinham 28,5 milhões de vacas de corte, ainda abaixo do ano anterior. Menos matrizes significam, com alguma defasagem, menor oferta de carne e preços mais elevados.
Aumentou, consequentemente, a necessidade de importações, inclusive de carne bovina magra utilizada na fabricação de hambúrgueres. Abriu-se uma oportunidade para o Brasil. Um mercado ao qual obtivemos acesso para carne in natura apenas recentemente. Mesmo com clamor do pecuarista norte-americano o Presidente Trump ainda abriu uma quota livre de tarifas de mais 300 mil toneladas onde seremos muito beneficiados. A necessidade americana encontrou a competitividade brasileira.
A China representa outro movimento.
O crescimento foi vertiginoso. Em 2025, comprou 1,68 milhão de toneladas de carne bovina brasileira, 48% de tudo o que exportamos. O aumento das importações pressionou a pecuária chinesa e Pequim reagiu utilizando um instrumento conhecido e previsto nas regras do comércio internacional: salvaguardas. Em junho deste ano, antes dos efeitos mais fortes das novas limitações, foram quase 162 mil toneladas em um único mês.

A medida não é uma sanção contra o Brasil. Aplica-se às importações chinesas de carne bovina e estabelece cotas por fornecedor. Para o volume brasileiro que ultrapassar sua cota, incide tarifa adicional de 55%. É um instrumento de defesa comercial previsto nas regras da OMC destinado a dar proteção temporária à produção doméstica diante de um aumento acentuado das importações.
Temos, portanto, três situações quase opostas: um mercado antigo que restringe; um mercado novo que precisa importar; e o maior mercado, que cresceu tanto que resolveu limitar as importações.
Quando acrescentamos aves e suínos, a confusão aumenta.
O Brasil é também líder mundial nas exportações de carne de frango e importante exportador de carne suína. Mas a geografia comercial de cada proteína é diferente. Um país pode estar aberto para aves e fechado para bovinos; comprar suínos de determinadas origens e impor outras condições para frangos. Pode habilitar algumas plantas frigoríficas e não outras. Uma ocorrência sanitária em determinada região pode suspender uma proteína sem necessariamente atingir as demais.
Não existe, portanto, um mercado simplesmente “aberto para a carne brasileira”. Existem acessos para bovinos, suínos e aves. E, dentro de cada um, diferenças entre produtos in natura e processados, com ou sem osso, regiões de origem e estabelecimentos habilitados. Sobre tudo isso se sobrepõem tarifas, cotas, protocolos sanitários, rastreabilidade, exigências ambientais, regras sobre antimicrobianos e instrumentos de defesa comercial.
Japão, Coreia do Sul e México ajudam a completar esse quebra-cabeça. O México mostra quanto uma nova abertura pode rapidamente transformar fluxos comerciais. Japão e Coreia continuam representando mercados de elevado valor nos quais ainda temos espaço importante a conquistar. Não vejo aqui a prioridade que deveria existir, por parte de todos. A hora é agora, quando o produto está em falta.
O problema não é necessariamente a existência dessas exigências. Comércio internacional sempre foi negociação de acesso. O erro é imaginar que abrir um mercado significa simplesmente conseguir autorização para vender.
A abertura sanitária pode existir e uma tarifa tornar o negócio inviável. Uma cota pode permitir entrar, mas impedir crescer. Uma exigência de rastreabilidade pode restringir a oferta. Uma salvaguarda pode alterar repentinamente um fluxo comercial. E uma exigência conhecida antecipadamente, como ocorreu com os antimicrobianos europeus, pode nos encontrar despreparados.
Para o Brasil, há uma conclusão estratégica.
Diversificar mercados não significa apenas aumentar o número de países compradores. Significa conseguir colocar cada carne no mercado que melhor a remunera, reduzindo simultaneamente a dependência de um comprador, de uma regra ou de uma circunstância conjuntural.
Se queremos vender, precisamos segregar, certificar e comprovar. Foi, em essência, o que fizemos com a rastreabilidade individual do SISBOV para a UE, ou do boi China de 30 meses verificado pela dentição no abate. Não é necessário transformar uma exigência específica de determinado comprador em regra universal para toda a produção brasileira. É necessário ter capacidade de atendê-la, comprová-la e cobrar o custo correspondente de quem demanda esse atributo.
Construímos extraordinária competência para produzir carnes. Precisamos ter a mesma competência para segregar, certificar, negociar e acessar mercados. Fica a lembrança que a UE ameaça impor as regras da EUDR, sua lei do desmatamento. Mesmo que tenha prorrogado no passado devem uma hora entrar em vigor. Estaremos preparados?
É hora de organizar a confusão das carnes.












