Armazenagem de grãos entra em alerta após acidentes revelarem ameaça oculta

A busca por rentabilidade na pós-colheita esbarra em um risco letal que cobra vidas todos os meses nas unidades armazenadoras do país.

Armazenagem de grãos entra em alerta após acidentes revelarem ameaça oculta
Ilustrativa

Quem vive o dia a dia da roça sabe que a correria durante a colheita é brutal. O maquinário rodando, o clima ameaçando virar e as carretas formando fila na moega. A prioridade acaba sendo tirar a soja ou o milho da lavoura e guardar o mais rápido possível para garantir a liquidez da safra. O duro é que, nessa pressa natural da atividade, um perigo silencioso vai se acumulando porteira para dentro. Estamos falando de um ambiente onde a poeira e os gases se transformam em armadilhas muitas vezes fatais.

Os números oficiais assustam quem trabalha no setor. Mais de seis trabalhadores perdem a vida todos os meses no Brasil trabalhando dentro de estruturas de armazenagem. A estatística foi levantada a partir de dados consolidados pela Auditoria-Fiscal do Trabalho, ligada ao Ministério do Trabalho, em um estudo aprofundado conduzido pelo auditor Rudy Allan Silva da Silva na Superintendência Regional do Rio Grande do Sul. E a realidade por trás dessa estatística revela soterramentos, explosões violentas e asfixia.

Armazenagem de grãos entra em alerta após acidentes revelarem ameaça oculta

Esses acidentes acontecem em uma das etapas mais fundamentais para segurar o preço do grão e garantir a margem de lucro da fazenda. Mas por ficar ali, quietinha no fundo da propriedade ou da cooperativa, a armazenagem acaba sendo a parte menos visível do ciclo produtivo. O problema central mora justamente na natureza física e química desses espaços fechados.

O silo é um espaço confinado, com dinâmica própria. O grão pode se comportar como um fluido e o ar interno pode apresentar condições inadequadas sem que isso seja percebido imediatamente”, explica Otávio Matos, gerente técnico da Cycloar.

O barril de pólvora que se forma acima da massa de grãos

Quando o produtor precisa descer a massa de grãos que por ventura ficou embuchada ou encrostada nas paredes, o risco dispara. O que muita gente não calcula é que o grão parado não é um material inerte. Ele respira, fermenta e libera partículas finas durante a movimentação. É aquele pó em suspensão que fica flutuando sob o telhado do armazém.

Se a umidade não estiver perfeitamente controlada, a atividade biológica ali dentro consome o oxigênio e libera gases tóxicos. O trabalhador entra para fazer um manejo simples, perde os sentidos e acaba afundando no meio da carga como se estivesse pisando em areia movediça. Além da asfixia, existe o risco fulminante das explosões. Basta juntar três coisas simples: oxigênio, a poeira do grão funcionando como combustível e uma faísca qualquer gerada por atrito de correias ou ferramentas.

Não é um cenário hipotético. São condições que podem estar presentes no dia a dia das unidades armazenadoras”, afirma Matos.

É exatamente por isso que órgãos fiscalizadores têm apertado o cerco exigindo o cumprimento rigoroso de manuais de segurança e da Norma Regulamentadora para espaços confinados, que baliza as regras de ventilação, resgate e acesso seguro a esses ambientes complexos.

O peso da tecnologia na conta do custo de produção

A forma como os produtores encaram suas estruturas de pós-colheita está sendo forçada a evoluir. Historicamente, quem investia em um silo estava preocupado quase que exclusivamente em não perder peso do grão, evitar caruncho e manter a classificação intacta para não sofrer descontos pesados na hora de entregar no porto ou na indústria.

Durante muito tempo, o foco esteve na qualidade do grão. Hoje, essa discussão precisa incluir também a segurança das operações. Um ambiente mais estável reduz a necessidade de intervenção humana e, consequentemente, o risco”, explica o especialista.

Nessa lógica de modernização, instalar equipamentos que controlam o microclima do silo deixou de ser luxo para virar prevenção de passivos trabalhistas graves. Sistemas de exaustão contínua no telhado, por exemplo, ajudam a puxar aquele ar quente e empoeirado para fora, dissipando os gases da fermentação e quebrando o triângulo da explosão. Outra sacada que vem ganhando força é a adoção de telhas e frestas de iluminação natural. Colocando a luz do sol para dentro, o operador enxerga os passadiços e as escadas com clareza, diminuindo os tropeços e as quedas em altura.

Virando a chave para o conceito de erro intolerável

Comprar equipamento resolve uma parte do gargalo, mas não blinda a fazenda se o operador continuar entrando no armazém de chinelo ou sem amarrar a linha de vida. “A segurança passa por um conjunto de fatores. Limpeza das unidades, manutenção dos equipamentos, treinamento das equipes e cumprimento de protocolos são fundamentais”, destaca Matos.

Armazenagem de grãos entra em alerta após acidentes revelarem ameaça oculta

O agronegócio está começando a beber da fonte da aviação e da indústria pesada, adotando o que os técnicos chamam de cultura de risco zero. Isso quer dizer que o tropeço ou o acidente não são mais vistos como “fatalidades” do destino, mas sim como falhas de processo que poderiam ser neutralizadas antes de acontecerem. O foco é arrancar pela raiz a cultura da gambiarra.

Ainda estamos construindo essa mentalidade no campo. “Ao reduzir a necessidade de entrada de pessoas nos silos e melhorar as condições do ambiente, conseguimos diminuir a exposição ao risco. É uma mudança de mentalidade que envolve toda a operação”, afirma o gerente técnico.

O trabalho de formiguinha já começou. Em estados fortes na agricultura como o Paraná, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia vem unindo forças com o Corpo de Bombeiros para rodar o interior fazendo treinamentos práticos de resgate e prevenção. O agricultor brasileiro já provou que sabe usar biotecnologia, drone e maquinário autônomo para colher mais em menos área. O próximo passo obrigatório é garantir que quem ajuda a guardar essa riqueza volte para casa em segurança no fim do turno.

Agronews