Mercado do boi gordo navega entressafra com escalas alongadas e consumo enfraquecido

A arroba do boi gordo sustenta um patamar elevado pelo Indicador Cepea/Esalq, mas o ritmo dos negócios no mercado físico expõe um cenário de liquidez reduzida e escalas de abate confortáveis para a indústria.

Mercado do boi gordo navega entressafra com escalas alongadas e consumo enfraquecido
Ilustrativa

O Indicador do Boi Gordo Esalq/B3 fechou a segunda-feira, 26 de maio, cotado a R$ 347,80 por arroba, uma leve alta de 0,46% sobre o pregão anterior. O indicador a prazo, referência para contratos futuros, ficou em R$ 351,73, mesma variação percentual. Os números mostram sustentação, mas o mercado físico conta uma história diferente.

Mercado físico diverge do indicador oficial

Levantamento da Scot Consultoria para o dia 26 de maio mostra um mercado mais fragmentado que o indicador de referência sugere. Em Barretos e Araçatuba, no interior de São Paulo, a arroba à vista foi cotada a R$ 341,00. No Triângulo Mineiro, o valor cai para R$ 318,50. Já em Goiânia a referência foi de R$ 320,50. Em Mato Grosso do Sul, as praças de Dourados e Campo Grande marcaram R$ 339,50.

A principal praça pecuária do país, Cuiabá e região metropolitana (que inclui Rondonópolis), registrou R$ 344,00 à vista, com pagamento em 20 dias a R$ 348,00. No Noroeste do Paraná, a referência foi de R$ 338,50, enquanto Santa Catarina apareceu com R$ 341,00.

O que salta aos olhos é a diferença entre praças do Sudeste e do Centro-Oeste. Enquanto São Paulo e Mato Grosso sustentam valores acima de R$ 340,00, praças como o Sul da Bahia (R$ 311,50) e o Acre (R$ 296,50) mostram um mercado desconectado, com diferenças que ultrapassam R$ 45 por arroba.

Mato Grosso mantém oferta firme e escalas em alta

Os dados do IMEA disponíveis para esta terça-feira, 27 de maio, apontam que a cotação do boi gordo disponível em Mato Grosso ficou na média de R$ 333,95 por arroba, uma alta de 0,31% sobre o dia anterior. A vaca gorda disponível foi a R$ 306,88 por arroba, variação positiva de 0,07%.

Nas principais praças mato-grossenses, os valores do boi gordo disponível circularam entre R$ 336,00 em Lucas do Rio Verde, Tangará da Serra e Diamantino, e R$ 335,00 em Rondonópolis. Sorriso apareceu com R$ 334,87, Cuiabá com R$ 334,67 e Sinop com R$ 333,65. A ponta mais baixa ficou com Rondolândia a R$ 323,50.

A escala de abate do estado subiu para 10,3 dias, um aumento de 1,76% na comparação diária. As regiões Oeste e Centro-Sul lideram com 11,4 e 9,5 dias respectivamente. Esse alongamento das escalas indica que os frigoríficos não estão sob pressão para recompor estoques, o que tira a urgência das compras e dá margem para testar valores menores.

B3 sinaliza cautela para os próximos meses

Na Bolsa de Valores brasileira, os contratos futuros do boi gordo mostraram um leve viés baixista nos vencimentos de curto prazo. O contrato para julho de 2026 fechou a R$ 346,70, com queda de 0,52% sobre o ajuste anterior. Agosto recuou 0,35%, para R$ 345,20. Setembro subiu 0,01%, a R$ 347,35.

Os vencimentos mais longos, porém, indicam otimismo moderado para o fim do ano. Outubro fechou a R$ 355,90 e novembro a R$ 357,65. Essa inclinação positiva na curva futura reflete a expectativa de que a entressafra mais apertada e o ciclo de oferta mais restrito sustentem preços maiores no último trimestre.

Mercado de reposição e custos de confinamento pesam

O mercado de reposição continua pressionado. O bezerro Nelore de 12 meses em Mato Grosso foi cotado a R$ 3.780 por cabeça, uma relação de troca de 10,96 arrobas. Em São Paulo, o bezerro Nelore saiu a R$ 3.400 por cabeça, com troca de 9,86 arrobas. Esses números mostram que o pecuarista precisa entregar cada vez mais arrobas de boi gordo para adquirir um animal de reposição.

O boi magro Nelore em Mato Grosso atingiu R$ 4.865 por cabeça, a segunda maior referência entre todos os estados, atrás apenas de Mato Grosso do Sul (R$ 5.236,50). A relação de troca em MT foi de 14,11 arrobas, uma das mais altas do país. Esse encarecimento da reposição desestimula a retenção de fêmeas, o que em médio prazo reduz a oferta de bois terminados.

O dólar PTAX fechou a segunda-feira a R$ 5,02, um fator que ajuda a manter o piso de preços do boi gordo via paridade de exportação. Por outro lado, o câmbio elevado encarece insumos do confinamento, como milho e farelo de soja. A relação de troca para o confinamento, portanto, segue desfavorável.

Exportações seguem fortes, mas ritmo chinês arrefece

O volume acumulado de embarques de carne bovina segue robusto no acumulado do ano, com destaque para a China como principal destino. Dados setoriais indicam que o ritmo semanal de compras chinesas perdeu tração nas últimas semanas, o que tira parte da sustentação que o mercado físico teve no primeiro trimestre.

O consumidor brasileiro, por sua vez, continua com poder de compra reduzido. O preço da carne no varejo limita o repasse das altas da arroba, criando um teto natural para os preços. Enquanto o atacado não conseguir transferir integralmente os custos para a ponta final, a indústria frigorífica tende a operar com margens enxutas e escalas moderadas.

Perspectivas para as próximas semanas

O cenário mais provável para o curto prazo é de mercado travado, com viés lateral a levemente baixista. As escalas confortáveis em MT, acima de 10 dias, tiram a pressão dos frigoríficos, que podem testar preços menores sem risco de desabastecimento. O consumo interno fraco e o ritmo moderado da China não oferecem gatilhos de alta imediatos.

Do lado da oferta, a entressafra continua limitando a disponibilidade de bois terminados, o que impede quedas bruscas. O piso da arroba deve se manter firme graças ao dólar elevado e ao custo alto da reposição. A tendência é de um mercado que anda de lado, aguardando um catalisador para definir a próxima direção.

Agronews