Fila de 25 km trava soja em Miritituba e expõe crise logística no agro
Congestionamento de caminhões no Pará provoca atrasos, eleva custos e pressiona exportações em meio à safra recorde
(Foto: Lucas Nunes/Famato)
Uma longa fila de caminhões carregados de soja preocupa produtores, transportadores e operadores logísticos nos últimos dias no porto fluvial de Miritituba, no Pará.
Carretas com grãos vindos de Mato Grosso e de outras regiões produtoras enfrentam filas que chegam a 25 quilômetros na BR 163, formando um cordão de veículos que serpenteia por dezenas de quilômetros até chegar ao terminal.
O congestionamento compromete o fluxo de embarques e ameaça o escoamento de uma safra que já é considerada histórica.
O déficit de infraestrutura no chamado Arco Norte volta ao centro do debate. Para este ano, a estimativa é de uma produção recorde de 353 milhões de toneladas de grãos no país, o que amplia a pressão sobre corredores logísticos já sobrecarregados.
O cenário é agravado pelo excesso de chuvas em Mato Grosso, que atrasou a colheita e concentrou o envio da produção em um intervalo mais curto.
O impacto recai diretamente sobre os custos logísticos, os prazos de embarque e a rotina dos caminhoneiros, que passam horas ou até dias aguardando a liberação para descarregar.
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O porto de Miritituba é hoje um dos principais pontos de escoamento da produção agrícola do Centro-Oeste, especialmente da soja destinada à exportação.
Localizado às margens do rio Tapajós, o terminal é estratégico por encurtar distâncias em relação aos portos do Sudeste e do Sul, integrando transporte rodoviário e hidroviário para a movimentação de cargas.
A estrutura, no entanto, tem se mostrado insuficiente para absorver o volume recorde colhido nesta safra. Com rodovias saturadas e capacidade limitada de recepção nos terminais, os caminhões se acumulam ao longo da pista, formando um cordão de veículos que se estende por dezenas de quilômetros.
Produtores e cooperativas alertam que o atraso no escoamento eleva o custo do frete, compromete prazos contratuais e pode reduzir a competitividade da soja brasileira no mercado internacional.
Para o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Vilmondes Tomain, o cenário evidencia a necessidade de ampliar a capacidade portuária e melhorar a gestão do fluxo com apoio do poder público.
“Esse é um Brasil que transforma, um Brasil que gera muita riqueza, só que temos que ter respeito com essas pessoas. Infelizmente não está havendo respeito com as pessoas que estão trabalhando”, afirmou Vilmondes.
A Famato realizou na segunda-feira (23) visitas técnicas em Miritituba (PA) para acompanhar, in loco, as condições logísticas do escoamento da safra de Mato Grosso pelo Arco Norte
O presidente defendeu que o gargalo logístico não pode ser tratado como normalidade e pediu união entre entes públicos e setor produtivo para encaminhar soluções estruturantes.
“Não é possível enfrentar uma fila gigante como esta de caminhões aguardando para fazer triagem, para descarregar. Isso não tem lógica. Faço um apelo para os nossos representantes, para os governos de Mato Grosso e do Pará e para a gente unir forças. Ministério da Agricultura e Ministério dos Transportes precisam vir aqui ver de perto essa demanda para trazer soluções”, disse.
Caminhoneiros relatam tempo excessivo de espera, dificuldade de acesso a serviços básicos nas rodovias e desgaste físico provocado pela permanência prolongada no trânsito parado. O gargalo também afeta outras cadeias produtivas que utilizam o mesmo corredor logístico, como milho, farelo e insumos agrícolas.
Outro fator que agrava o cenário é a precariedade de trechos rodoviários que ligam Mato Grosso e outros polos produtores ao porto. Com a demanda recorde de grãos, os limites da infraestrutura ficam ainda mais evidentes.
Segundo o Agro Estadão, dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) indicam que a movimentação na região cresceu 10,33% no último ano, alcançando 163,3 milhões de toneladas. O avanço superou a média nacional, de 6,1%, e reforça a tendência de aumento da pressão sobre o sistema logístico do Arco Norte.

Preocupação no campo
Produtores rurais e cooperativas do Centro-Oeste demonstram preocupação com os efeitos imediatos do travamento. Filas como as registradas em Miritituba reduzem o poder de negociação em contratos futuros, pressionam margens de lucro e criam incertezas no cumprimento de compromissos firmados com tradings internacionais.
O episódio também reabre o debate sobre a necessidade de diversificação de rotas, com maior uso de ferrovias e hidrovias. Esses modais, no entanto, ainda não estão plenamente estruturados para absorver a demanda crescente.
Há consenso no setor de que o Brasil precisa acelerar investimentos em infraestrutura logística, tanto nos terminais portuários quanto nas rodovias e ferrovias, além de ampliar o uso eficiente das hidrovias.
A expansão da capacidade operacional, a melhoria das estradas e uma integração mais consistente entre os diferentes modais são apontadas como medidas essenciais para evitar a repetição de gargalos como o de Miritituba.
Enquanto esses avanços não se consolidam, o agronegócio brasileiro seguirá exposto a episódios de congestionamento logístico que encarecem custos e comprometem a previsibilidade das exportações.








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