1,3 milhão de hectares sem plantio de milho jogam o segundo semestre na incerteza
Chuvas que atrasaram a soja deixaram a safrinha sem janela ideal, e agora o risco de seca no outono ameaça a oferta e os preços do cereal
Brasil vai colher soja recorde neste ano. São previstos 173,3 milhões de toneladas, número que consolida o país como maior produtor global da oleaginosa. Mas debaixo dessa manchete vitoriosa corre uma corrente subterrânea de preocupação: 1,3 milhão de hectares de milho safrinha ainda esperavam plantio no Centro-Sul em meados de março, contra apenas 500 mil no mesmo período de 2025. Não é detalhe técnico. É o tipo de atraso que se converte em desabastecimento no segundo semestre, pressão sobre ração animal, alta de preços e dor de cabeça para quem cria frango, porco ou gado de leite. A safra de soja deste ano está sendo colhida sob o signo da dessincronia climática, chuva demais no Centro-Norte, seca violenta no Sul, e o milho safrinha, plantado na sequência, herdou esse problema.
A conta que não fecha na janela ideal
Até 12 de março, 91% da área estimada de milho safrinha estava plantada no Centro-Sul, segundo a AgRural. Parece alto, mas o ano passado tinha 97% na mesma data. Seis pontos percentuais de diferença representam, na prática, mais de 800 mil hectares que perderam a janela considerada segura pelos agrônomos.
A janela ideal de plantio do milho safrinha termina, dependendo da região, entre o final de fevereiro e a primeira semana de março. Depois disso, cada semana que passa aumenta a probabilidade de a cultura pegar o período seco de abril e maio – justamente na fase crítica de enchimento de grãos. Sem água nessa etapa, a produtividade despenca.
Foi o que aconteceu com a soja no Rio Grande do Sul. Lá, a estiagem chegou no pior momento, durante o enchimento dos grãos, e municípios como Júlio de Castilhos decretaram emergência agrícola. Perdas de até 50% foram registradas em propriedades do oeste gaúcho, onde a produtividade esperada de 60 sacas por hectare derreteu para menos de 35 em algumas fazendas. Mesmo que a chuva voltasse – e voltou, mas tarde demais – o dano já estava feito. Grão que não encheu não enche mais.
O milho safrinha corre risco parecido. Plantar fora da janela é apostar contra o calendário climático. E em 2026, com La Niña dando lugar a uma neutralidade climática instável, essa aposta ficou ainda mais arriscada.
O atraso do milho é filho direto do atraso da soja.
A colheita da oleaginosa atingiu 61% da área nacional até meados de março, mais de 10 pontos percentuais abaixo do ritmo de 2025. O motivo varia conforme a geografia. No Matopiba e em boa parte do Centro-Oeste, chuvas constantes impediram a entrada de máquinas nas lavouras. Mato Grosso, que já tinha colhido 78% da área, sofreu menos, mas estados como São Paulo chegaram a acumular atraso de 50% em algumas regiões.
No Norte e Nordeste, o excesso de umidade criou outro problema: grãos com teor de água acima do aceitável, exigindo mais tempo de secagem e controle rígido para evitar descontos na hora da venda. Produtor que esperava entregar soja direto da lavoura teve que segurar o grão, secar, esperar. Tudo isso consumiu dias preciosos.
Enquanto isso, no Sul, o problema era o oposto. Falta de chuva. O déficit hídrico em Mato Grosso do Sul foi tão severo que o INMET estimou perdas de até 35% de produtividade em regiões do sul e sudeste do estado até 15 de março. No Rio Grande do Sul, a situação beirou o desastre em algumas áreas. Plantas que não encheram grãos, lavouras que secaram no pé, produtores que viram a renda de um ano inteiro evaporar em semanas de calor acima de 35 graus e solo rachado.
Resultado: soja atrasada significa milho atrasado. E milho atrasado significa risco.
O que esperar do segundo semestre
A Conab projeta safra total de grãos em 353,4 milhões de toneladas para o ciclo 2025/26, crescimento de apenas 0,3% sobre o ano anterior. O que chama atenção é a queda esperada de 9,1% na produção de milho safrinha, segundo o IBGE. Se o atraso no plantio se confirmar em perdas de produtividade – e tudo indica que sim – essa redução pode ser ainda maior.
Milho safrinha responde por cerca de 75% da produção nacional do cereal. É dele que dependem os frigoríficos, as granjas, as fábricas de ração. Uma quebra significativa pressiona preços já no início do segundo semestre, quando a oferta costuma ser mais folgada. Pra piorar, o Brasil também exporta milho – somos o terceiro maior exportador global, e compromissos comerciais já estão firmados.
Preços da soja, por outro lado, vinham pressionados. O indicador Cepea acumulou queda de cerca de 10% no início de 2026, reflexo do aumento de oferta com a colheita acelerada e da competição da soja norte-americana na China. Mas o milho pode seguir caminho oposto. Oferta menor, demanda firme, janela de plantio comprometida: a equação aponta para alta.
Produtores que venderam milho antecipado, travando preços baixos, podem amargar prejuízo. Quem segurou estoque pode se dar melhor. Mas isso é especulação de mercado – e no campo, especular é arriscado.
Há ainda o fator externo. A escalada do conflito entre Irã e Israel elevou o preço do petróleo, encarecendo fretes e insumos. Diesel mais caro impacta diretamente o custo de produção e transporte. Em Mato Grosso, produtores já pagavam mais de R$ 490 por tonelada de frete no auge da colheita da soja. Com milho, a conta tende a repetir.
Clima virou gestão de risco contínua
“A variabilidade climática deixou de ser exceção e virou gestão contínua de risco“, resume uma discussão que viralizou entre produtores nas redes sociais em março. A frase captura bem o sentimento do setor.
Não é mais sobre ter um ano ruim a cada cinco. É sobre ter extremos climáticos todo ano, só que em regiões diferentes. Em 2026, o Sul queimou de seca enquanto o Centro-Norte afogava em chuva. No ano anterior, foi diferente. No próximo, será diferente de novo. Previsibilidade virou artigo raro.

Produtores estão buscando saídas. Cresce o interesse por cultivares resistentes à seca, por sistemas de irrigação, por monitoramento climático via satélite e aplicativos. Informação meteorológica deixou de ser curiosidade e virou ferramenta estratégica. Quem planta sem acompanhar previsões de curto, médio e longo prazo está jogando no escuro.
O problema é que tecnologia custa caro. E margem de lucro anda apertada. Safra recorde não significa necessariamente renda recorde. Preços pressionados, custos elevados, clima imprevisível: o produtor está no meio desse sanduíche. Municípios gaúchos que decretaram emergência agrícola vivem um ciclo vicioso desde 2020, quebra de safra gera menos renda, menos renda reduz investimento, menos investimento aumenta vulnerabilidade à próxima quebra.
A safrinha é a bola da vez
Enquanto a soja já está praticamente definida, recorde de produção, sim, mas com rentabilidade questionável em várias regiões, o milho safrinha ainda é incógnita.
Os 1,3 milhão de hectares que estavam pendentes em março são uma bomba-relógio climática. Se abril e maio vierem secos, como costuma acontecer no Centro-Oeste, parte dessa área vai render pouco. Muito pouco. Ou nada.
Produtores sabem disso. Mas entre perder a janela ideal e não plantar, muitos escolhem arriscar. Afinal, terra parada não gera receita. E custo fixo não espera. Fertilizante foi comprado, máquina precisa rodar, financiamento tem vencimento. A lógica econômica às vezes empurra o produtor para decisões que a lógica agronômica desaconselha.
O mercado está de olho. Traders, cooperativas, indústrias de ração, exportadores, todo mundo acompanhando a evolução do plantio e, principalmente, as previsões climáticas para os próximos dois meses. Uma estiagem prolongada em abril pode virar manchete de jornal em junho, quando a oferta apertar e o preço disparar.
A safra 2025/26 vai entrar para as estatísticas como mais um recorde brasileiro. Mas quem vive o campo sabe que recorde de produção não paga conta sozinho. O milho safrinha plantado fora de hora carrega agora a responsabilidade de definir se o segundo semestre será de alívio ou aperto. Enquanto isso, produtores checam aplicativos de previsão do tempo com a mesma frequência com que checam o saldo bancário. No agro de 2026, céu aberto virou luxo, e janela de plantio, ouro.
Agronews








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