Enquanto exportações desaceleram, o boi gordo volta a subir

Alcides Torres Jr., da Scot Consultoria, explica por que a recuperação da arroba ocorre mesmo com a desaceleração das exportações de carne bovina para a China e analisa as perspectivas para o mercado

Enquanto exportações desaceleram, o boi gordo volta a subir
ilustrativa

O mercado do boi gordo voltou a surpreender em julho. Enquanto as exportações brasileiras de carne bovina dão sinais de desaceleração após uma sequência de recordes, a arroba reagiu no mercado físico, contrariando o movimento tradicional de queda na segunda quinzena do mês.

Para o engenheiro agrônomo Alcides Torres Jr., diretor-proprietário da Scot Consultoria, de Bebedouro (SP), os dois movimentos podem coexistir e têm explicações distintas. A análise foi apresentada durante entrevista ao programa Terraviva DBO na TV desta quarta-feira (22/7).

China deve continuar comprando carne bovina brasileira

Na avaliação de Alcides Torres, o preenchimento da cota de importação da China deve ocorrer entre o fim de julho e o início de agosto, mas isso não significa que o país deixará de comprar carne bovina do Brasil.

Segundo ele, a experiência da Austrália mostra que as compras continuam mesmo após o esgotamento da cota, embora em menor intensidade. “Isso não significa que a China vai parar de importar. A Austrália já preencheu a cota e continua exportando, não no mesmo volume, mas ainda continua tendo uma saída da carne deles para os chineses.”

O analista explica que a tarifa adicional de 55% reduz a competitividade da carne brasileira, mas outros fatores continuam favorecendo o produto nacional. “A gente tem qualidade, tem embalagem, tem volume de entrega. É claro que preço pesa mais do que tudo e a gente deve sofrer uma diminuição dos embarques, mas os compradores chineses devem continuar comprando do Brasil, em menor quantidade.”

União Europeia também preocupa as exportações

Além da China, o diretor da Scot Consultoria chamou atenção para outro desafio enfrentado pelas exportações brasileiras: as restrições impostas pela União Europeia.

Segundo ele, dificilmente haverá tempo para reverter as exigências previstas para setembro e, na sequência, novas regras relacionadas ao desmatamento também devem entrar em vigor. “Agora em setembro a gente não consegue resolver isso de maneira técnica. Teria que ser de uma maneira política.”

Exportações podem perder ritmo após sequência de recordes

Embora reconheça que as exportações brasileiras possam perder ritmo após uma longa sequência de recordes, Alcides Torres evita cravar uma queda mais intensa nos embarques e ressalta que o Brasil deve seguir como protagonista no mercado internacional.

“A gente deve ter um bom volume de exportação, embora talvez seja menor em função desse momento que a gente vai ter aí entre agosto e setembro. Ainda assim o Brasil vai ser o grande exportador de carne global.”

Oferta restrita explica recuperação do boi gordo

Enquanto o mercado externo enfrenta incertezas, o comportamento do mercado físico surpreendeu pela recuperação da arroba justamente na segunda metade de julho.

Segundo Alcides Torres, a principal explicação está na redução da oferta de animais terminados. “Teve uma oferta de preços mais baixos do que vinha acontecendo. A arroba deu uma caidinha, mas a oferta desapareceu.”

Na avaliação dele, esse movimento pode estar relacionado tanto à menor disponibilidade de bovinos quanto às chuvas registradas fora de época, que deram mais condições para o produtor adiar a comercialização. “Ou realmente o rebanho está bem enxuto, ou essa chuva que caiu fora de época tem permitido que o pecuarista retenha a oferta.”

Como consequência, a redução da disponibilidade de animais levou os frigoríficos a ajustarem suas estratégias de compra. Segundo o analista, muitas indústrias reduziram temporariamente o ritmo das aquisições por receio de formar estoques elevados de carne, mas agora voltam ao mercado para recompor volumes suficientes para atender tanto o mercado interno quanto as exportações.

Assista à entrevista completa com Alcides Torres Jr. a partir do minuto 7:12.