Chuvas irregulares preocupam produtores do Tocantins, enquanto soja, milho e boi gordo enfrentam mudanças no mercado
Relatório de outubro do Itaú BBA aponta riscos para o plantio da safra 2026/27 no Matopiba, recuperação dos preços do boi gordo e cenário de maior concorrência para os grãos brasileiros
A irregularidade das chuvas no Tocantins e em outros estados do Matopiba está entre os principais pontos de atenção para a safra 2026/27. O alerta faz parte do relatório Agro Mensal de outubro, divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA, que também apresenta perspectivas para os mercados de soja, milho, carne bovina e fertilizantes.
Segundo a análise, o avanço do fenômeno El Niño tem provocado diferenças na distribuição das chuvas pelo Brasil. Enquanto a região Sul registra precipitações frequentes, áreas do Centro-Oeste e do Matopiba enfrentam maior irregularidade, situação que exige cautela dos produtores no início do calendário agrícola.
No Tocantins, o retorno mais lento das chuvas pode dificultar a implantação das lavouras de soja e comprometer o planejamento das culturas de segunda safra. O relatório destaca que eventuais atrasos na semeadura da oleaginosa poderão reduzir a janela disponível para o milho safrinha, aumentando a exposição das lavouras aos riscos climáticos.
Plantio de soja no Tocantins exige atenção ao clima
Os dados apresentados pelo Itaú BBA mostram que, até 9 de outubro, o plantio da soja no Tocantins ainda não havia avançado nas áreas acompanhadas pelo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Na mesma época de 2025, a semeadura alcançava 2% da área estadual.
No cenário nacional, a implantação da safra 2026/27 atingiu 15,6% da área prevista até 9 de outubro, superando os 11,1% registrados no mesmo período do ano passado.
O avanço foi impulsionado principalmente por Mato Grosso, onde a melhora das condições de umidade permitiu acelerar os trabalhos de campo. Entretanto, o desempenho não foi uniforme entre as regiões produtoras.
Para o Matopiba, formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a análise indica que a chegada mais lenta das precipitações mantém o plantio sob atenção.
Além do calendário agrícola, os produtores também acompanham o comportamento dos preços da soja. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta produção brasileira de 186 milhões de toneladas na safra 2026/27, enquanto as exportações são estimadas em 118 milhões de toneladas.
A perspectiva de ampla oferta mundial pode limitar valorizações mais expressivas, embora a demanda chinesa e eventuais problemas climáticos continuem influenciando as cotações.
Milho enfrenta concorrência dos Estados Unidos
O mercado de milho apresenta um cenário de maior competição internacional, apesar da valorização registrada em setembro.
Segundo o Itaú BBA, o preço médio da saca em Sorriso (MT) chegou a R$ 54 em setembro, alta de 14% em relação a agosto. No entanto, as exportações brasileiras continuam abaixo do desempenho do ano anterior.
Entre fevereiro e setembro de 2026, o Brasil embarcou 15,5 milhões de toneladas de milho, volume 21,5% inferior ao registrado no mesmo intervalo de 2025.
A análise aponta que a maior disponibilidade de milho nos Estados Unidos poderá intensificar a concorrência com o produto brasileiro no mercado internacional.
O USDA elevou a estimativa de produção norte-americana para 407,3 milhões de toneladas na safra 2026/27. Os estoques finais também foram revisados para cima, alcançando 47 milhões de toneladas.
Para os produtores brasileiros, esse cenário pode limitar a recuperação dos preços, especialmente se as exportações dos Estados Unidos mantiverem um ritmo elevado.
No Tocantins, o desempenho da segunda safra também dependerá das condições climáticas e da data de plantio da soja, que influencia diretamente o calendário do milho.
Boi gordo registra recuperação e mercado projeta preços próximos de R$ 400 por arroba
A pecuária de corte apresenta perspectivas mais favoráveis para os próximos meses. O relatório aponta recuperação dos preços do boi gordo, impulsionada principalmente pela menor oferta de animais disponíveis para abate.
Entre o final de agosto e 9 de outubro, a arroba do boi gordo em São Paulo acumulou valorização de 9,3%, chegando a aproximadamente R$ 376.

No mercado futuro, os contratos com vencimento a partir de novembro se aproximavam de R$ 400 por arroba, indicando expectativas positivas para o último trimestre do ano.
O Itaú BBA avalia que a oferta mais restrita, a perspectiva de retomada das compras chinesas e a demanda sazonal de fim de ano podem contribuir para sustentar as cotações.
Apesar disso, o banco alerta que os preços elevados da carne bovina, tanto no mercado interno quanto no exterior, podem limitar novas altas.
Outro fator de atenção para os pecuaristas é o encarecimento dos animais de reposição. O aumento desses custos pode comprometer a rentabilidade das operações de recria e engorda nos próximos anos.
Diante desse cenário, a consultoria aponta oportunidades para os produtores utilizarem mecanismos de proteção dos preços de venda dos animais programados para abate.
Fertilizantes continuam pressionando custos de produção
O mercado de fertilizantes também apresenta desafios para o planejamento da próxima safra.
Segundo o relatório, as tensões no Oriente Médio e os custos logísticos internacionais têm contribuído para sustentar os preços de determinados insumos agrícolas.
A ureia, fertilizante nitrogenado utilizado em diferentes culturas, foi negociada a US$ 470 por tonelada na referência de importação para o Brasil, valorização de 3% em relação ao início de setembro.
Em contrapartida, outros produtos registraram redução nas cotações. O cloreto de potássio (KCl) caiu 5%, chegando a US$ 355 por tonelada, enquanto o fosfato monoamônico (MAP) recuou 1,2%, para US$ 830 por tonelada.
Mesmo com essas quedas pontuais, o custo dos fertilizantes continua sendo uma preocupação para o setor agrícola, especialmente diante da necessidade de equilibrar os investimentos na lavoura com as perspectivas de preços das commodities.
Entre janeiro e setembro, o Brasil importou 28,5 milhões de toneladas de fertilizantes, redução de 15,7% em relação ao mesmo período de 2025.
Perspectivas para a safra 2026/27
O levantamento do Itaú BBA mostra que o desempenho do agronegócio brasileiro nos próximos meses será influenciado por diferentes fatores, com destaque para as condições climáticas, a demanda internacional e os custos de produção.
Para o Tocantins, a distribuição das chuvas aparece como uma das principais variáveis neste início de safra, principalmente pela importância da soja e do milho na atividade agrícola estadual.
Na pecuária, a recuperação do boi gordo abre perspectivas de melhores preços de comercialização, mas exige atenção ao custo da reposição e às margens da atividade.
Já para os produtores de grãos, a expectativa de maior oferta mundial reforça a necessidade de acompanhar o comportamento das cotações e o ritmo das exportações brasileiras.
O relatório indica que, embora existam oportunidades de valorização em determinados mercados, o planejamento da produção e o acompanhamento do clima continuarão sendo fundamentais para os resultados da safra 2026/27.
Com informações do Agro Mensal – Consultoria Agro Itaú BBA, outubro de 2026. Dados de mercado e plantio referentes aos períodos de apuração indicados no relatório, principalmente setembro e início de outubro.











