Mais CO2 e calor podem impulsionar produção de soja, mas reduzir qualidade alimentar

Pesquisa alerta que mudanças climáticas tendem a aumentar rendimento das lavouras enquanto diminuem nutrientes do grão

Mais CO2 e calor podem impulsionar produção de soja, mas reduzir qualidade alimentar
Ilustrativa

(Foto: Daniel Popov/ Canal Rural).

De acordo com os cientistas, os grãos produzidos sob esse cenário apresentaram redução de 20% no teor de amido e queda de 6% na quantidade de proteína. Em contrapartida, houve aumento de 175% no teor de aminoácidos.

O coordenador do Lafieco, Marcos Buckeridge, afirma que os resultados acendem um alerta para a nutrição animal, já que a soja é uma das principais fontes proteicas utilizadas na alimentação de rebanhos.

“Essa proteína diminui nos cenários drásticos de mudanças climáticas. Além disso, o grão perde amido, o que significa menos energia”, resume o pesquisador

Efeito do CO2 sobre a planta surpreendeu pesquisadores

Segundo o estudo, o aumento do CO2 atmosférico tende a estimular o crescimento das plantas e aumentar a produção de sementes. Além disso, o gás também ajuda a reduzir os efeitos da seca, já que provoca fechamento parcial dos estômatos das folhas, diminuindo a perda de água.

Os pesquisadores afirmam que o comportamento da soja diante da combinação dos três fatores surpreendeu a equipe.

“Eu esperava que os três fatores de estresse se anulassem e o crescimento da planta não se alterasse muito. Me surpreendeu o fato de ela crescer mais sob três fatores de pressão”, afirmou Buckeridge.

Apesar do aumento na produção, os cientistas observaram que a planta passa a direcionar mais carbono para fibras estruturais, como celulose e hemicelulose, reduzindo o teor de amido no grão.

Inteligência artificial ajudou a prever impactos

O estudo utilizou dados obtidos em experimentos controlados com soja submetida a condições de seca, calor e aumento de CO2. Com essas informações, ferramentas de inteligência artificial foram usadas para prever o comportamento da planta diante do chamado “triplo impacto”.

Os testes foram realizados em câmaras especiais que simulavam concentração elevada de dióxido de carbono, aumento de temperatura em até 5°C e redução da irrigação.

Os pesquisadores utilizaram um cultivar da Embrapa, o MG/BR-46 (Conquista), amplamente estudado para simulações de seca em condições semelhantes às do campo.

Próximo passo será identificar genes ligados à adaptação

Agora, o grupo pretende identificar quais genes estão relacionados às respostas da soja aos diferentes fatores de estresse climático. O objetivo é desenvolver plantas mais adaptadas às mudanças climáticas, sem perda significativa de proteína e energia nos grãos.

Os pesquisadores também querem aplicar a metodologia em outras culturas agrícolas, como a cana-de-açúcar, para aprimorar modelos de previsão dos impactos climáticos sobre a produção agrícola mundial.

Por Canal Rural.