Antimicrobianos na mira da UE: os impactos e alternativas para a pecuária

Com alto volume de animais e prazo curto para a terminação, confinamentos terão aumento de custo e redução de margem em eventual progressão na lista restritiva de aditivos melhoradores de desempenho

Antimicrobianos na mira da UE: os impactos e alternativas para a pecuária
ilustrativa

A partir de 3 de setembro, o Brasil corre o risco real de sair da lista de fornecedores de carne bovina para a União Europeia, um mercado avaliado em US$ 2 bilhões ao ano, e o motivo não é sanitário.

O que está em jogo é o uso de antimicrobianos como aditivos melhoradores de desempenho na engorda de bovinos, uma tecnologia que sustenta boa parte do salto produtivo que o confinamento brasileiro deu nas últimas duas décadas.

Neste sentido, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) já se movimentou em duas frentes. Publicou a Portaria SDA/MAPA nº 1.617/2026, proibindo em todo o País aditivos como virginiamicina e bacitracina.

E, também em alinhamento às exigências europeias, homologou, em 29 de maio, a Portaria nº 1.635, que reconhece um Protocolo Privado de Exportação de Bovinos Livres de Antimicrobianos, criado por entidades do setor para segregar, voluntariamente, o gado destinado à Europa do restante do rebanho nacional.

O detalhe que ainda deixa a cadeia produtiva aflita é que esse protocolo trata de uma lista de cinco antibióticos já banidos (avoparcina, bacitracina, bacitracina de zinco, bacitracina metileno disalicilato e virginiamicina), mas não resolve, neste momento, o futuro da monensina, o ionóforo mais usado em confinamentos brasileiros.

Tecnologia que virou marco histórico

Descoberta em 1967 e aprovada pelo FDA americano em 1975, a monensina sódica é definida por Júlio Cesar Borges da Silva, gerente técnico nacional de bovinos de corte da Agroceres Multimix, como um divisor de águas na nutrição de bovinos de corte.

Júlio, da Agroceres Multimix: “Um produtor europeu não consegue competir com a arroba brasileira. Então, buscam outras formas de proteger seu mercado”

“Existe um marco pré e pós-monensina para a pecuária de corte e para a consolidação do sistema de confinamento no Brasil.”

Antes dela, as dietas de confinamento eram compostas por 60% a 70% de forragem e apenas 30% a 40% de concentrado energético, modelo que vigorava no Brasil nos anos 1980, quando o País tinha entre 400 mil e 500 mil animais confinados. Hoje, esse número é de 8 milhões de cabeças.

O salto não é coincidência. Ao controlar os ácidos produzidos no rúmen, a monensina permitiu formular dietas muito mais ricas em energia, atualmente em torno de 72% a 75% de NDT (Nutrientes Digestíveis Totais), podendo chegar a 80% em alguns sistemas sem provocar distúrbios metabólicos no animal.

“Isso oferece segurança para o boi crescer, ganhar peso e melhorar a eficiência alimentar, sem comprometer a saúde e o bem-estar dele”, resume Júlio.

Como benefício adicional, o produto ainda reduz a emissão de metano do rebanho, um ponto relevante na pauta ambiental que cerca a pecuária.

Caso haja a proibição da monensina, o produtor terá que retroceder ao cenário de décadas atrás, quando as dietas tinham 65% de NDT, para garantir a segurança metabólica dos animais. 

Segurança já testada

Júlio é direto ao afirmar que a pressão sobre esses aditivos não nasce de uma descoberta científica recente sobre riscos à saúde.

“Pelo contrário, uma vez que estudos do FDA, da OMS e, mais recentemente, da própria autoridade máxima de segurança alimentar da União Europeia (European Food Safety Authority), concluíram não haver risco ao consumidor quando as doses recomendadas aos animais são observadas. Não existe evidência consistente de resistência antimicrobiana clinicamente relevante para a saúde humana”, observa.

Na leitura do gerente técnico da Agroceres Multimix, o movimento europeu se assemelha às antigas políticas de proteção agrícola do bloco, criadas para blindar o produtor local do avanço de importações mais baratas.

“Um produtor europeu não consegue competir com a arroba brasileira. Então, buscam outras formas de proteger seu mercado e a barreira que encontraram foi a dos ionóforos”, avalia.

Para Júlio, se a proibição avançar sobre a monensina, o impacto prático será imediato: sem esse ionóforo controlando os parâmetros ruminais, não é possível aumentar a densidade energética da dieta com segurança.

“Como resultado, o boi demorará mais para engordar ou pesará menos no dia do abate”, enfatiza o especialista, que aponta uma perda de eficiência de produção entre 8% (em animais europeus) e 16% (nos zebuínos).

Na prática, isso significa que o boi ganhará peso de forma mais lenta, permanecendo por mais tempo no piquete ou no confinamento, o que eleva diretamente o custo de produção e reduz a margem de lucro do pecuarista. “Num cenário de confinamento, de alto volume e prazos curtos, o impacto financeiro é muito relevante.”

Não existe, segundo ele, atalho de manejo, como aumentar o volume no cocho, capaz de compensar essa perda sem reformular toda a dieta. A alternativa passa por aditivos biológicos: leveduras, ácidos orgânicos, óleos essenciais, taninos e minerais orgânicos.

“Os biológicos funcionam e amenizam o impacto de uma eventual proibição da monensina, porém, ainda não apresentam o mesmo índice de eficiência deste ionóforo e nem possuem o mesmo nível de estudos em relação à sua eficiência. E, como é pouco usada, o preço é maior”, pondera Júlio, citando que o custo desses insumos tende a cair no longo prazo, à medida que a demanda cresça e novos fornecedores entrem no mercado. 

Segregação do rebanho e o papel da indústria

Uma das saídas debatidas é justamente separar o gado destinado à Europa do restante da produção, que é a lógica por trás do protocolo já homologado pelo Mapa.

Júlio confirma que é operacionalmente viável, mas apenas em escala de nicho, já que o mercado europeu absorve hoje cerca de 3% a 4% da carne exportada pelo Brasil.

Frigoríficos de grande porte, como os que operam na região do Vale do Araguaia, abatendo entre 70 mil e 180 mil animais por ano, teriam volume suficiente para justificar uma linha exclusiva e certificada. Já plantas menores não conseguiriam dividir a operação sem inviabilizar o negócio.

Diante de toda essa movimentação e de mais um desafio imposto à pecuária, a Agroceres Multimix já testa moléculas biológicas em seu centro de pesquisa e mantém parceria internacional para viabilizar volume e uso de taninos, leveduras, óleos essenciais, dentre outros, caso o cenário regulatório se confirme.

Ainda assim, Júlio chama a atenção sobre o tempo necessário para uma mudança em escala comercial. “A empresa não lança um produto sem ter certeza da eficácia dele.”

Do teste interno à validação em universidades parceiras, um passo considerado essencial para dar credibilidade científica, o processo levaria entre três e cinco anos de trabalho intenso.

Enquanto as negociações entre as partes seguem em aberto e a monensina permanece fora do protocolo de segregação já homologado, a mensagem que fica para o produtor é dupla: por ora, não há proibição deste ionóforo no Brasil, mas a cadeia já se movimenta tecnicamente para não ser pega de surpresa.

Como resume Júlio, a discussão em curso “está mais ligada a uma estratégia de mercado e a um protocolo comercial do que a qualquer evidência real de insegurança, seja para o consumidor, seja para a saúde animal”, mas isso não muda o fato de que, se a régua europeia avançar, o custo de produção e o tempo de confinamento no Brasil vão sentir o impacto.

Alternativas biológicas para a pecuária

  • Leveduras e probióticos: utilizadas para equilibrar a flora ruminal, embora muitas vezes funcionem melhor em conjunto com ionóforos do que como substitutos isolados.
  • Óleos essenciais e taninos: moléculas naturais que buscam modular a fermentação, diminuindo a perda energética e a emissão de metano.
  • Ácidos orgânicos e minerais orgânicos: ferramentas que auxiliam na saúde metabólica e desempenho.
  • Blends nutricionais: A tendência é que os nutricionistas desenvolvam misturas complexas desses componentes para tentar se aproximar dos resultados obtidos com os químicos.