Café brasileiro ganha espaço na Ásia e muda jogo das exportações
China e Japão puxam demanda, preços sustentados e novas exigências mudam a estratégia do produtor.
O que está por trás do avanço do café brasileiro na Ásia
O café brasileiro está encontrando na Ásia um dos vetores mais consistentes de crescimento das exportações. Não é movimento pontual nem moda passageira. Os dados de 2025 mostram que a região virou destino estratégico, tanto para volumes quanto para valor agregado, e isso começa a mexer diretamente com decisão de venda, padrão de qualidade e planejamento de safra dentro da porteira.
O ponto central é simples: enquanto alguns mercados tradicionais enfrentam barreiras comerciais e consumo mais estável, a Ásia segue ampliando base de consumidores, redes de cafeterias e demanda por cafés diferenciados. Para o produtor, isso significa oportunidade, mas também mais cobrança em padrão, logística e gestão de risco.
Contexto e preços: exportar menos volume, faturar mais
Em 2025, mesmo com queda de 21% no volume total exportado pelo Brasil entre janeiro e novembro, a receita das exportações de café cresceu 25,3% em dólares, segundo dados do Cecafé. O motivo está claro: preços internacionais elevados sustentaram o faturamento.
O grão chegou ao recorde de US$ 4,51 por libra-peso em maio de 2025 e ainda operava em US$ 3,9505/lb em 26 de agosto de 2025, acumulando alta de 51% em relação ao ano anterior. Foram três safras consecutivas com preços acima da média, algo raro no café.
Na prática, o produtor sente isso no bolso quando consegue alinhar qualidade, timing de venda e logística. Quem travou preço em bons momentos e manteve padrão de bebida conseguiu proteger margem mesmo com custos pressionados.
China e Japão: onde está o crescimento real da Ásia
A China consolidou-se como o grande destaque. Entre janeiro e novembro de 2025, importou 1,043 milhão de sacas de 60 kg de café brasileiro, alta de 30,42% em relação ao mesmo período de 2024, quando havia comprado cerca de 800 mil sacas. Com isso, tornou-se o 6º maior importador do café do Brasil.
O consumo chinês é estimado em 6,2 milhões de sacas no ciclo 2024/25, crescimento de 7% frente ao ciclo anterior. Esse avanço não vem só do consumo doméstico, mas da expansão agressiva de redes como a Luckin Coffee, que fechou acordo para compra de 4 milhões de sacas. É escala industrial puxando demanda constante.
O Japão segue como mercado maduro e previsível. Em 2024, importou 2,211 milhões de sacas, representando 4,4% do total exportado pelo Brasil. O diferencial é o perfil: 14,6% desse volume foi de cafés especiais. Aqui, preço não é o único fator; consistência, rastreabilidade e perfil sensorial pesam mais.
Custos e margens: onde o produtor precisa abrir o olho
Com preços internacionais firmes, a tentação é vender tudo no físico e aproveitar o momento. Mas o cenário exige cautela. Os custos seguem elevados, principalmente em mão de obra, insumos e logística. Além disso, os estoques brasileiros estão reduzidos em 2025, o que limita as exportações a algo próximo de 40 milhões de sacas, bem abaixo do recorde de 50,5 milhões registrado em 2024.
Margem não é só preço alto. É gestão. Quem vende sem planejar pode ficar descoberto mais adiante, especialmente se a próxima safra atrasar ou se houver gargalos logísticos.

Clima, oferta e o peso da próxima safra
A safra 2025/26 vem com viés positivo. A Conab projeta 55,7 milhões de sacas, crescimento de 2,7% frente ao ciclo anterior. Já a StoneX estima 47,2 milhões de sacas de arábica, com alta expressiva de 29,3%, além de crescimento nas canéforas.
No Espírito Santo, as condições climáticas favoreceram o conilon, com avanço em mecanização e produtividade. A área total cultivada no país chegou a 412,6 mil hectares em 2025, com crescimento mais forte nas áreas em formação, o que sinaliza potencial de produção maior nos próximos ciclos.
O que muda a conversa é 2026. A expectativa de safra recorde depende da consolidação dessas lavouras novas e da manutenção do clima. Até lá, a oferta segue relativamente ajustada.
Câmbio, exportação e entraves logísticos
Não há dados recentes consolidados de câmbio específicos para café com foco na Ásia, mas o mercado internacional segue sustentado. O desafio maior está fora da fazenda: atrasos portuários e escassez de contêineres, especialmente para a China, continuam pesando no custo e no prazo de embarque.
Esses gargalos afetam diretamente o fluxo de caixa do exportador e, por consequência, a formação de preço ao produtor. Em alguns momentos, o prêmio pago não cobre o risco logístico.
Estratégias práticas para o produtor de café
Para quem olha o mercado asiático como destino, alguns pontos precisam entrar no radar:
- Padronização e qualidade: China absorve volume, Japão paga diferencial por consistência.
- Gestão de contratos: travas parciais ajudam a proteger margem sem perder upside.
- Logística planejada: atraso em porto vira custo direto.
- Sustentabilidade: exigências como EUDR, que entram na Europa em 2026, acabam influenciando também compradores asiáticos.
Um sinal positivo é a habilitação de 183 novas empresas brasileiras para exportar à China, ampliando canais de venda e concorrência entre compradores.
O recado é claro: a Ásia não é mais mercado complementar. É eixo central da estratégia de venda do café brasileiro.
Agronews








Comentários (0)
Comentários do Facebook