Enquanto UE veta entrada de carne bovina brasileira, seca afeta pecuária do continente

A estiagem na Europa está obrigando os pecuaristas a recorrerem às reservas de forragem de inverno meses antes do previsto

Enquanto UE veta entrada de carne bovina brasileira, seca afeta pecuária do continente
ilustrativa

A poucos menos de um mês de entrar em vigor o veto da União Europeia (UE) à carne bovina brasileira, uma forte seca vem assolando o setor pecuário em todo o continente.

Segundo informação publicada no portal Euractiv (www.euractiv.com), a estiagem na Europa está obrigando os pecuaristas a recorrerem às reservas de forragem de inverno meses antes do previsto, uma vez que pastagens ressecadas e plantações danificadas reduzem a oferta de alimentos para o gado.

A medida europeia, prevista para ser colocada em prática a partir de 3/9, retira o Brasil da lista de exportadores autorizados a vender determinados produtos de origem animal ao bloco e foi justificada por autoridades locais por supostas falhas no controle do uso de antimicrobianos na cadeia produtiva.

Euractiv relata que este verão europeu vem sendo marcado por incêndios florestais e calor intenso, com cerca de 38% do território da UE exposto à seca, incluindo 14,8% das terras agrícolas e 14,5% das florestas.

Para os pecuaristas, diz a agência de notícia, o problema imediato é a alimentação.

“O ressecamento das pastagens reduziu o pastoreio em partes da Europa Ocidental e Central, enquanto as más colheitas tornam as fontes alternativas mais escassas e caras”, relata a reportagem.

Segundo o texto, os agricultores e os governos estão a responder de maneiras diferentes: antecipando a abertura dos estoques de ração de inverno, reduzindo o tamanho dos rebanhos, procurando alimentos alternativos e, em alguns casos, flexibilizando as normas agrícolas.

França recorre às reservas

Na França, a Confédération Paysanne, associação de agricultores com inclinações ecológicas, alertou para perdas de estoque de forragem entre 30% e 60%, dependendo da região.

O sindicato afirmou que o acesso restrito às áreas de pastagem, particularmente em regiões atingidas por incêndios florestais ou em risco de incêndio, está dificultando o acesso à ração, diz a reportagem.

Como resultado, os agricultores estão utilizando ração armazenada normalmente reservada para o outono e o inverno, afirmou, à Euractiv, Yohann Barbe, presidente da federação de produtores de leite FNPL.

“Se a situação continuar assim, corremos o risco de ficar sem”, disse ele, acrescentando que os agricultores agora aguardam a colheita da beterraba sacarina, quando a polpa da beterraba poderá ser usada como ração animal.

A falta de pastagens também está afetando a produção. Como grande parte da produção de leite na França durante o verão depende do pastoreio, as pastagens ressecadas contribuíram para uma queda de 3% a 4% na produção de leite, disse Barbe.

Os pecuaristas, diz o portal Euractiv, prevendo escassez de ração, estão reduzindo seus rebanhos e enviando mais animais para o abate. O aumento da oferta está agravando a queda nos preços da carne, que já havia começado antes do verão.

Na Espanha, os agricultores também estão enfrentando problemas com pastagens mais secas e custos crescentes de ração. “Em maio, já estávamos registrando temperaturas de 32 a 35ºC”, afirmou Juan Luis Delgado, do sindicato agrícola ASAJA.

Embora as chuvas de inverno tivessem sido relativamente boas, o calor precoce fez com que os pastos secassem e reduziu a disponibilidade de água.

Delgado também apontou para as más colheitas de cereais e palha na Espanha e em outros lugares, o que elevou os custos da ração.

Preparando-se para a próxima seca

Ainda de acordo com a reportagem, na Baviera, Alemanha, as autoridades flexibilizaram as regras para fazendas orgânicas, permitindo que elas comprem ração convencional devido a circunstâncias “catastróficas”, uma possibilidade prevista na legislação da UE.

A Irlanda está avaliando o problema antes de decidir se serão necessárias medidas adicionais. Com a crescente preocupação com o abastecimento de ração para o inverno, o governo pediu aos agricultores que calculem suas necessidades.

Para o Centro de Estudos Farm Europe, com sede em Bruxelas, a prioridade é preparar-se para a recorrência de secas e verões difíceis.

“Precisamos tanto de um plano de emergência quanto de um plano de investimento para evitar que a agricultura europeia fique para trás e para fortalecer sua resiliência”, disse o secretário-geral Luc Vernet à Euractiv.