EUA retiram tarifas de carne importada: um novo risco para o "beef-on-dairy"?

A decisão do governo dos Estados Unidos de retirar tarifas sobre 300 mil toneladas de carne bovina importada provocou preocupação também entre os produtores de leite do país.

EUA retiram tarifas de carne importada: um novo risco para o
ilustrativa

A decisão do governo dos Estados Unidos de retirar tarifas sobre 300 mil toneladas de carne bovina importada provocou preocupação também entre os produtores de leite do país. Segundo Gregg Doud, presidente e CEO da National Milk Producers Federation (NMPF) e ex-chefe das negociações comerciais agrícolas durante o primeiro governo de Donald Trump, pelo menos 20% da renda das fazendas leiteiras norte-americanas atualmente vem da venda de vacas leiteiras de descarte e bezerros.

Para Doud, a intervenção no mercado de carne bovina ocorre justamente em um momento no qual produtores de leite investiram em genética, eficiência e cruzamentos entre animais leiteiros e raças de corte, estratégia conhecida nos Estados Unidos como beef-on-dairy. “Intervir nos mercados de commodities agrícolas nunca funciona”, afirmou Doud em entrevista ao Farm Journal. “Pode servir a um propósito no curto prazo, mas, no longo prazo, nunca é uma boa ideia.”

Carne passou a representar 20% da renda

A participação da carne na receita das propriedades leiteiras ganhou importância nos últimos anos. De acordo com Doud, pelo menos 20% da renda das fazendas leiteiras vem atualmente da comercialização de vacas de descarte e bezerros. Esse novo cenário econômico também estaria relacionado ao crescimento do rebanho leiteiro dos Estados Unidos, que alcançou seu maior nível desde 1992.

Segundo Doud, quando uma vaca leiteira está prenhe, há hoje um incentivo maior para que ela permaneça no rebanho devido ao valor do bezerro cruzado com genética de corte. Atualmente, um bezerro preto proveniente de cruzamento entre animais leiteiros e de corte vale aproximadamente US$ 1.500, segundo ele. O valor é muito diferente do observado antes da disseminação do uso de sêmen sexado. Doud lembra que um bezerro macho Holandês valia cerca de US$ 150. “A indústria da carne pode alugar o útero dessa vaca leiteira”, afirmou. “Esse bezerro preto de cruzamento entre corte e leite agrega uma quantidade enorme de valor, o que está impulsionando — eu diria — o principal fator do aumento da produção de leite.”

70% dos produtores já utilizam genética de corte

A adoção da estratégia avançou rapidamente nos Estados Unidos. Doud estima que aproximadamente 70% dos produtores de leite norte-americanos já estejam utilizando sêmen de raças de corte em suas vacas, alterando a economia da produção leiteira. Ele acredita, porém, que essa participação já esteja próxima do nível que deverá prevalecer daqui para frente. Isso acontece porque parte das vacas ainda precisa ser inseminada com sêmen sexado para produzir as futuras novilhas de reposição. Segundo Doud, a disponibilidade de novilhas de reposição no setor leiteiro está bastante limitada atualmente.

O que representam as 300 mil toneladas?

Doud também calculou o tamanho das 300 mil toneladas de carne bovina que poderão entrar nos Estados Unidos com a retirada das tarifas. Considerando exclusivamente as vacas leiteiras, esse volume corresponderia a aproximadamente quatro meses e meio do abate de vacas leiteiras de descarte no país.

Embora o número de vacas leiteiras descartadas seja pequeno quando comparado ao de bovinos de corte terminados, esses animais têm importância no mercado de carne moída. É justamente nesse segmento que as aparas magras importadas competem.

Segundo Doud, o produto importado provavelmente será composto por aparas brasileiras com 90% de carne magra, que já estariam entre os produtos magros mais baratos disponíveis no mercado. Na avaliação dele, a retirada da tarifa não significa necessariamente que o benefício chegará ao consumidor. “Se você elimina a tarifa, quem realmente recebe isso é o exportador, não necessariamente o consumidor”, afirmou. Para Doud, o principal efeito da medida pode ocorrer sobre a percepção do mercado em relação à oferta disponível. Segundo ele, a presença dessa quantidade adicional de carne sobre o mercado pode afetar as expectativas e, consequentemente, os valores recebidos pelos produtores por vacas de descarte e animais cruzados.

Momento da decisão preocupa produtores

Doud também chama atenção para o período em que a medida foi anunciada. Nos Estados Unidos, muitas vacas de corte são comercializadas depois da desmama dos bezerros. Animais mais velhos ou vacas que não ficaram prenhes podem ser retirados do rebanho nesse período para evitar que sejam alimentados durante todo o inverno.

Por isso, segundo ele, a decisão sobre as importações coincidiu justamente com um período de maior comercialização de vacas de descarte. “Quando você desmama os bezerros, é quando essas vacas chegam ao mercado, que é agora, nesta época do ano”, explicou. Doud afirmou que já foi possível observar movimentos nos preços das vacas de descarte e no mercado de gado após a medida.

Preocupação também envolve expansão do rebanho

Para o presidente da NMPF, existe ainda um efeito potencial sobre as decisões futuras dos produtores. O período de desmama é também o momento em que pecuaristas precisam decidir se uma novilha permanecerá no rebanho para ser inseminada no ano seguinte ou se seguirá para o confinamento.

Na avaliação de Doud, uma intervenção que limite a atratividade econômica da atividade pode prolongar o processo de expansão do rebanho bovino. “Se vai haver intervenção do governo no mercado, qual é o sentido de eu expandir e planejar para o futuro? Vou simplesmente colocar essa novilha no confinamento e pegar o dinheiro”, afirmou ao descrever a decisão que um produtor poderia tomar diante desse cenário.

Rebanho leiteiro chega a 9,71 milhões de cabeças

O debate ocorre enquanto a produção leiteira norte-americana cresce. O rebanho nacional chegou a 9,71 milhões de cabeças, aumento de 199 mil animais em relação ao ano anterior, enquanto a produção de leite avançou 2,7% na comparação anual.

Doud acredita que grande parte desse crescimento esteja relacionada à economia proporcionada pelo beef-on-dairy. Ao mesmo tempo, considera que esse efeito pode estar próximo de atingir um limite, uma vez que cerca de 70% dos produtores já adotaram o uso de genética de corte. “Grande parte disso já foi implementada”, afirmou. “É mais ou menos aqui que vamos ficar, com alguma variação.”

Exportações de lácteos devem superar US$ 10 bilhões

Apesar das críticas à política para a carne bovina, Doud demonstrou confiança na competitividade internacional da indústria leiteira dos Estados Unidos. As exportações de lácteos norte-americanos caminham para superar US$ 10 bilhões neste ano, o que colocaria o setor como o terceiro maior exportador agrícola do país, atrás apenas do milho e da soja.

As exportações de queijo também estão em níveis recordes e registraram crescimento de aproximadamente 30% na comparação anual no início de 2026. “O setor leiteiro dos Estados Unidos é muito, muito mais competitivo hoje do que jamais foi, e tenho absoluta certeza de que, daqui para frente, seremos uma força no mercado mundial de lácteos”, afirmou Doud.

México continua sendo o maior cliente dos produtos lácteos norte-americanos, seguido pelo Canadá. A América Central também vem apresentando forte crescimento. Doud relaciona o avanço na região ao acordo de livre comércio e à redução das tarifas para os produtos lácteos dos Estados Unidos a zero em 2015.

“Deixem o mercado funcionar”

Para Doud, o governo deveria evitar intervenções nos mercados de commodities agrícolas e permitir que os sinais de mercado orientem as decisões dos produtores. “Nós, na agricultura, precisamos lembrar aos nossos formuladores de políticas em Washington que deixem o mercado funcionar”, afirmou. “Intervir nos mercados de commodities agrícolas nunca funciona. Pode servir a um propósito no curto prazo, mas, no longo prazo, nunca é uma boa ideia.”

Doud também citou o embargo de grãos à União Soviética promovido pelo governo de Jimmy Carter como um exemplo histórico de ruptura provocada por decisões políticas. Ele ponderou que não considera a retirada das tarifas sobre a carne uma situação da mesma magnitude. Ainda assim, defendeu cautela para que intervenções de curto prazo não alterem o funcionamento do mercado. “Se deixarmos o mercado funcionar, nossa capacidade de competir no mundo como um todo no setor de proteínas — carne bovina, suína, de aves e lácteos — é incomparável”, afirmou.

As informações são do Dairy Herd Management, adaptadas pela equipe MilkPoint.