Trump acusa pecuária brasileira de trabalho forçado, mas carne escapa de nova tarifa dos EUA

Medida do USTR mira falhas contra trabalho forçado, mas preserva embarques estratégicos do agro brasileiro.

Trump acusa pecuária brasileira de trabalho forçado, mas carne escapa de nova tarifa dos EUA
Ilustrativa

A nova ofensiva comercial de Donald Trump colocou a pecuária brasileira sob pressão política, só que não fechou a porta para a carne bovina nos Estados Unidos. O Escritório do Representante Comercial dos EUA, o USTR, propôs uma tarifa adicional de 12,5% contra 60 economias, entre elas o Brasil, após investigação aberta pela Seção 301.

O ponto sensível está na acusação de falhas no combate à entrada de mercadorias feitas com trabalho forçado. A verdade é que a conclusão americana trata de mecanismos institucionais e não de uma punição direta ao boi brasileiro.

Na avaliação do setor produtivo, a medida americana tenta pressionar o Brasil no campo da imagem internacional, mas preserva o que realmente importa para a balança comercial do agro.

Gado de corte em pastagem no Brasil em meio a debate sobre tarifas dos Estados Unidos

Carne bovina brasileira foi listada entre os produtos isentos da nova sobretaxa proposta pelos Estados Unidos.

USTR propõe tarifa de 12,5%, mas preserva produtos-chave do agro brasileiro

O comunicado divulgado pelo USTR em 2 de junho de 2026 afirma que Brasil, Argentina, Canadá, Chile, Índia, Japão, México, Coreia do Sul, Reino Unido e outras economias foram enquadrados por não proibirem ou não aplicarem barreiras suficientes contra importações ligadas a trabalho forçado em terceiros países.

Na ponta do lápis, porém, o desenho da medida separa pressão diplomática de preservação comercial. O Anexo A deixou fora da nova cobrança uma lista extensa de itens sensíveis para o abastecimento americano e para o agro nacional.

Entraram nessa blindagem carne fresca, refrigerada, congelada, cortes com osso e sem osso, miúdos, carne salgada, seca, defumada e industrializados. Também aparecem café verde e torrado, chá, erva-mate, pimenta, baunilha, canela, cravo, gengibre, frutas tropicais, cacau em diferentes formas e fertilizantes como ureia, sulfato de amônio, nitrato, fosfatados, cloreto de potássio e NPK.

Carne e café concentram parte relevante do alívio tarifário

Dados do MDIC, pela plataforma Comex Stat, dimensionam o tamanho do alívio. Em 2024, as vendas brasileiras de carne bovina aos Estados Unidos somaram cerca de US$ 1,35 bilhão. O café não torrado avançou ainda mais, perto de US$ 1,9 bilhão.

Item Condição na proposta Referência citada
Tarifa adicional Aplicação proposta 12,5%
Carne bovina aos EUA Isenta no Anexo A US$ 1,35 bilhão em 2024
Café não torrado aos EUA Isento no Anexo A US$ 1,9 bilhão em 2024
Audiência pública Etapa aberta 7 de julho de 2026

Acusação pressiona reputação da pecuária, mas não fecha o mercado americano

A fala de Trump pesa porque associa o Brasil a fragilidades no controle de cadeias produtivas. Agora, o pulo do gato está em entender o alcance jurídico da investigação. O USTR não declarou que os 60 países usam trabalho escravo em suas exportações, mas sustentou que eles teriam lacunas para impedir compras externas contaminadas por esse tipo de prática.

Esse enquadramento mantém a carne brasileira em zona de vigilância reputacional, embora os embarques tenham sido poupados. Para frigoríficos, pecuaristas e tradings, o risco imediato não é uma barreira tarifária nova sobre o produto. É a possibilidade de o tema ganhar força em auditorias, contratos privados e debates no Congresso americano.

CNA contesta investigação e defende legislação brasileira

A CNA contestou a investigação e sustenta que o Brasil tem legislação trabalhista robusta, fiscalização oficial e instrumentos públicos para coibir irregularidades. O Ministério do Trabalho mantém operações de combate ao trabalho análogo à escravidão, com resgates, autos de infração e responsabilização administrativa quando são encontradas violações.

Pois é, a disputa também será narrativa. Porteira adentro, o setor tenta mostrar rastreabilidade, controles de fornecedores e resposta rápida a inconformidades. Do lado americano, a Casa Branca usa a agenda trabalhista como argumento para reorganizar tarifas e aumentar pressão sobre parceiros comerciais.

Mato Grosso entra no centro do risco por liderar produção e exportação de carne

Mato Grosso acompanha o caso de perto por ser o maior produtor de carne bovina do Brasil e também o principal exportador nacional do produto. Mesmo sem sobretaxa sobre a carne, qualquer ruído envolvendo trabalho forçado pode chegar rápido a plantas frigoríficas, fazendas fornecedoras e compradores internacionais.

Detalhe, a isenção não elimina exigências de conformidade. Ela apenas mostra que Washington preferiu preservar itens relevantes para consumo, indústria e inflação interna, enquanto mantém a investigação como instrumento de barganha comercial.

Audiência de julho pode redefinir alcance da medida

O calendário ainda pode mexer na conta de chegada. A audiência pública está marcada para 7 de julho de 2026. Comentários escritos serão recebidos até 6 de julho, enquanto pedidos para participação oral devem ser apresentados até 22 de junho.

Até lá, a leitura mais realista é cautela. A pecuária brasileira escapou da tarifa adicional proposta, mas entrou no centro de uma acusação sensível para compradores globais. O mercado americano segue aberto, só que a cobrança por prova documental, rastreabilidade e governança tende a ficar mais dura.

Agronews