Cadeia do algodão reage a possível fim da taxa das blusinhas e alerta para impacto na indústria

Manifesto reúne 53 entidades da indústria, varejo e agro em defesa da manutenção da cobrança

Cadeia do algodão reage a possível fim da taxa das blusinhas e alerta para impacto na indústria
Ilustrativa

Há apenas cerca de 17 dias no cargo, o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, assumiu o comando da equipe econômica em meio a um cenário de pressão sobre as contas públicas.

Entre os desafios no radar está uma possível revisão, durante a campanha eleitoral, da chamada “taxa das blusinhas” — alíquota de 20% aplicada a compras internacionais de até US$ 50.

A medida ganhou relevância nos últimos meses ao reforçar a arrecadação federal. Apenas no ano passado, o governo arrecadou cerca de R$ 5 bilhões com o tributo.

A possibilidade de mudanças já provocou reação de entidades do setor produtivo. Um manifesto assinado por 53 organizações da indústria, comércio e trabalhadores — incluindo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e a Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea) — manifesta preocupação com um eventual recuo na política.

O documento se posiciona contra a retomada da isenção sobre produtos importados vendidos por plataformas estrangeiras de e-commerce e defende a manutenção da cobrança como forma de garantir isonomia tributária.

Segundo o presidente da Abrapa, Gustavo Piccoli, a proposta traz riscos diretos para a cadeia produtiva.

“A proposta representa um risco concreto de retrocesso para a cadeia produtiva nacional, especialmente em setores diretamente impactados pela concorrência internacional, como o têxtil e o de vestuário ambos fortemente conectados à produção de algodão no país”.

Recuperação da indústria e geração de empregos

O manifesto sustenta que o fim da isenção tributária, iniciado em 2023 com a cobrança de ICMS no âmbito do programa Remessa Conforme e ampliado em 2024 com o imposto de importação, trouxe impactos positivos para a economia.

Entre os principais pontos destacados estão a retomada do crescimento da indústria e do varejo, além da geração de empregos. Dados citados indicam que o comércio criou cerca de 860 mil empregos diretos desde a implementação das medidas, enquanto a indústria gerou outros 578 mil postos formais.

No mesmo período, o Brasil registrou taxa de desemprego de 5,1% ao fim de 2025, a menor da série histórica.

Piccoli afirma que os efeitos também chegam ao campo. “O fortalecimento da indústria têxtil nacional amplia a demanda por matéria-prima brasileira, consolidando o algodão como um dos pilares da indústria brasileira de transformação”.

Impacto fiscal e arrecadação

Outro ponto central do documento é o impacto fiscal. Segundo o manifesto, apenas em 2024 o comércio recolheu R$ 246 bilhões em tributos federais, com aumento de R$ 36,9 bilhões em relação ao ano anterior.

Além disso, a arrecadação com o imposto de importação sobre remessas internacionais somou cerca de R$ 5 bilhões em 2025.

As entidades estimam que uma eventual reversão da política poderia gerar perda anual próxima de R$ 42 bilhões para a União, considerando os efeitos diretos e indiretos sobre a arrecadação.

Consumo e concorrência

Na avaliação das entidades, a tributação não inibiu o consumo, mas contribuiu para reduzir a desigualdade tributária entre empresas nacionais e plataformas estrangeiras.

Pesquisa do Instituto Locomotiva, citada no manifesto, aponta que, após a retomada do imposto de importação, apenas 12% deixaram de comprar nessas plataformas.

Outros 36% reduziram as compras, enquanto a maioria — 52% — manteve ou ampliou o consumo.

Contexto internacional

O manifesto também destaca que países como Estados Unidos, membros da União Europeia e outras economias vêm adotando medidas semelhantes para tributar remessas internacionais, diante do avanço das plataformas globais de e-commerce.

As entidades defendem que a manutenção da política é essencial para garantir previsibilidade e sustentar investimentos no país.

Quem assina o manifesto

O documento é subscrito por mais de 50 entidades representativas da indústria, comércio e trabalhadores, entre elas:

Abicalçados; Abinee; Abióptica; Abit; ABLos; ABMalls; ABMAPRO; Abrapa; ABRAFAS; Abrinq; ABVTex; ALSHOP; Anamaco; Anea; Ápice; Assintecal; CIESP; CNC; CNDL; CNI; Fecomércio MG; Fecomércio RS; Fecomércio SC; FIEMG; FIESC; FIERGS; Firjan; IDV; Instituto Unidos Brasil; Sietex; SIFITEC; SIFT MG; SIFT RN; Simmesp; Sindimeias; Sindiroupas CE; Sinditec; Sinditêxtil RJ; Sinditêxtil SP; Sindivest JF; Sindivest MG; Sindivest RS; Sindvest Maringá; Sindvest Nova Friburgo; Sinvesd; SIVERGS; Sindvest SJN; Sintex; Sindivest; Sivale; UNECS; UGT.