Inadimplência do crédito rural ultrapassa 15porcento no Tocantins e supera média nacional, aponta Cepea
Estudo da Esalq/USP revela que juros elevados, mudanças nas condições de financiamento e queda na rentabilidade dos grãos pressionam produtores rurais.
A inadimplência do crédito rural ultrapassou 15% no Tocantins, índice superior à média nacional de 9,7% registrada em agosto de 2026. Os dados fazem parte de um estudo divulgado nesta segunda-feira (19) pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, que analisa o endividamento rural brasileiro entre 2013 e 2026.
O levantamento mostra que o aumento das dívidas em atraso não está relacionado apenas ao volume de financiamentos contratados pelos produtores. Segundo os pesquisadores, o encarecimento do crédito, a mudança no perfil das instituições financiadoras e a concentração das dívidas ajudam a explicar o avanço da inadimplência.
No Brasil, o índice de inadimplência do crédito rural de pessoas físicas passou de 0,8% em dezembro de 2022 para 9,7% em agosto deste ano, atingindo o maior patamar da série histórica do Banco Central.
O cenário é especialmente preocupante nos estados produtores de grãos. Enquanto Goiás registra inadimplência de 8,8%, Tocantins e Maranhão apresentam índices superiores a 15%.
Juros mais altos pressionam produtores
Um dos principais fatores identificados pelo Cepea é o aumento do custo dos financiamentos rurais. Entre 2021 e 2025, a taxa média de juros do crédito rural para pessoas físicas passou de 6,3% para 12,2% ao ano.
Com isso, a despesa anual estimada com juros quase triplicou, passando de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões. O valor, que representava 3,9% da renda da agropecuária, chegou a 11,4% em 2025.
O estudo também identificou mudanças nas fontes de financiamento utilizadas pelos produtores. As operações com taxas livres, como as financiadas por Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), passaram de 5% do crédito rural contratado em 2013 para quase metade em 2023.
Essas modalidades acompanham as condições do mercado financeiro e concentram 77% do saldo em atraso. A inadimplência nesse tipo de operação chegou a 17,6%, enquanto nos financiamentos com juros controlados ficou em 3,8%.
Queda nos preços dos grãos agrava situação
A pesquisa aponta que os produtores de grãos enfrentam maior pressão financeira devido à combinação entre juros elevados, custos de produção e redução dos preços recebidos pela produção.
Segundo o Cepea, o preço real dos grãos está 28% abaixo do registrado em 2021. O setor também enfrenta a pior relação de troca com fertilizantes da série analisada, o que compromete a capacidade de pagamento das propriedades.
Na pecuária, o estudo identifica um cenário diferente, com condições de mercado mais favoráveis em comparação à produção de grãos.
Os pesquisadores também observaram que o endividamento rural não cresceu de forma desproporcional à renda do setor. Em 2025, a carteira de crédito rural correspondia a 94% da renda anual da agropecuária, percentual dentro da faixa histórica observada entre 2013 e 2019.
O problema, segundo a análise, está principalmente no custo dos financiamentos e na capacidade dos produtores de cumprir os compromissos diante das mudanças no mercado.

Dívidas problemáticas chegam a R$ 205 bilhões
O levantamento revela que o índice oficial de inadimplência representa apenas parte das dificuldades financeiras enfrentadas pelo agronegócio.
Em agosto de 2026, a carteira de crédito rural considerada problemática pelo Banco Central somava R$ 205 bilhões, equivalente a 23,8% do saldo total.
Desse montante, aproximadamente três quartos correspondem a operações que já foram renegociadas ou prorrogadas e, por isso, não aparecem nas estatísticas tradicionais de inadimplência.
A distribuição dessas dívidas varia entre as regiões brasileiras. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a inadimplência era de 3,2%, mas o estado concentrava 27% do saldo nacional de financiamentos renegociados ou prorrogados.
Já em estados produtores de grãos do Centro-Oeste e do Matopiba, como Tocantins e Maranhão, as dificuldades financeiras aparecem de maneira mais expressiva nos índices de atraso.
Renegociação ainda alcança parcela limitada das dívidas
O estudo também avaliou os resultados das medidas de renegociação do crédito rural.
Até 5 de outubro de 2026, a Medida Provisória nº 1.376/2026 havia possibilitado a renegociação de R$ 5,98 bilhões, valor correspondente a apenas 5% do montante estimado. Desse total, 1,3% estava relacionado a dívidas de investimento.
Os pesquisadores Lucilio R. A. Alves e Geraldo S. A. de C. Barros apontam que parte das dificuldades atuais está relacionada a financiamentos de investimento contratados entre 2020 e 2022, quando as margens da produção de grãos eram mais favoráveis.
Com a redução da rentabilidade e a elevação dos juros, esses compromissos passaram a vencer em condições financeiras menos favoráveis aos produtores.
Para os autores, as soluções devem considerar a situação de cada propriedade, diferenciando dificuldades temporárias de pagamento de problemas estruturais de capacidade financeira.
O estudo também ressalta a necessidade de ampliar as informações disponíveis sobre dívidas contraídas fora do sistema tradicional de crédito rural, incluindo operações com fornecedores, Cédulas de Produto Rural (CPRs) e outras modalidades de financiamento.
A pesquisa integra a série Textos Ocasionais para Discussão (TOD), do Cepea, e reúne dados do Banco Central, IBGE, Banco Mundial e do próprio centro de pesquisas.











