China movimenta mercado do sorgo e pode abrir nova frente para produtores do Tocantins
Demanda chinesa aumenta as exportações brasileiras enquanto o grão avança no Estado como alternativa ao milho na segunda safra
A entrada da China no mercado brasileiro de sorgo começa a mudar a dinâmica de comercialização do grão e pode abrir novos mercados para produtores do Tocantins. O movimento ocorre em um período em que a cultura já vinha aumentando sua presença no Estado, principalmente como alternativa ao milho na segunda safra.
Segundo informações publicadas pela Globo Rural, a VLI realizou em setembro o primeiro transporte ferroviário de sorgo no Brasil voltado à exportação. A companhia estruturou uma operação específica para atender à nova demanda e estima movimentar entre 800 mil e 1 milhão de toneladas do cereal em 2026.
A projeção apresentada pela empresa é de que o Brasil possa exportar até 2 milhões de toneladas de sorgo neste ano. A China concentra mais de 80% das importações mundiais do produto, utilizado no país tanto na alimentação animal quanto na fabricação do baijiu, bebida tradicional chinesa.
O avanço das negociações ocorre após a abertura oficial do mercado chinês ao produto brasileiro. O protocolo fitossanitário entre Brasil e China para exportação de sorgo está vigente desde novembro de 2024 e estabelece exigências relacionadas à sanidade vegetal, armazenamento, transporte e segregação das cargas.
No Tocantins, esse movimento internacional encontra uma cultura que já vinha aumentando sua participação nas lavouras. O sorgo tem sido utilizado principalmente na segunda safra e ocupa mais espaço quando o produtor perde a janela considerada ideal para o plantio do milho.
A menor exigência hídrica é um dos fatores que ajudam a explicar esse avanço. O sorgo demanda menos água e, em determinadas condições, pode ter custo de produção inferior ao milho, o que torna a cultura uma alternativa para áreas plantadas mais tarde.
Em levantamento trabalhado anteriormente pelo Tocantins Rural, a Aprosoja Tocantins apontou produtividade próxima de 3 mil quilos por hectare para o sorgo no Estado. A entidade também indicou possibilidade de avanço da área cultivada nos próximos ciclos, podendo se aproximar de 200 mil hectares.
O vice-presidente da Aprosoja Tocantins, Thiago Facco, já havia destacado que o sorgo possui capacidade de produzir entre 3 mil e 4 mil quilos por hectare em condições de aproximadamente 700 milímetros de chuva.
A cultura, porém, também sente os efeitos das adversidades climáticas. Na safra de 2026, lavouras implantadas mais tarde registraram perda de produtividade em regiões atingidas pela estiagem.
Sorgo avança na segunda safra
O crescimento do sorgo também aparece entre produtores ligados a cooperativas no Estado. No balanço da segunda safra de 2026 da Frísia Cooperativa Agroindustrial, a cultura apresentou aumento de área e produtividade no Tocantins.
A expansão acompanha a diversificação das lavouras de segunda safra. Além do milho, produtores têm ampliado o cultivo de sorgo, gergelim e feijão-mungo, principalmente em situações em que o calendário da soja atrasa e reduz a janela disponível para o milho.
Esse comportamento já havia sido observado em levantamentos anteriores no Estado, com substituição de áreas que seriam destinadas ao milho por culturas consideradas mais adaptadas ao plantio tardio.
A chegada de um comprador do tamanho da China adiciona um novo fator à decisão do produtor: a possibilidade de vender para outros mercados.

Historicamente, o sorgo brasileiro teve como principal destino a fabricação de ração animal. Nos últimos anos, também passou a atender a indústria de etanol e, mais recentemente, o mercado externo.
Segundo a Globo Rural, a entrada dos chineses já contribuiu para melhorar os preços em algumas regiões produtoras do país, aproximando a cotação do sorgo da praticada para o milho.
Logística pode definir acesso ao mercado externo
Para o Tocantins, a logística deve ter peso direto no acesso a esse novo mercado.
A VLI começou a receber em julho as cargas destinadas à exportação e utilizou inicialmente corredores ferroviários ligados aos portos de Santos, em São Paulo, e Tubarão, no Espírito Santo.
Em setembro, a operação chegou ao Corredor Norte, com a primeira movimentação de sorgo em direção ao Porto do Itaqui, no Maranhão.
A entrada dessa rota no Norte do país pode favorecer estados produtores do Matopiba, entre eles o Tocantins, pela proximidade com regiões produtoras e terminais de exportação.
O modelo adotado para atender ao mercado chinês também exige cuidados específicos. O produto precisa permanecer segregado durante recebimento, armazenagem, transporte e embarque para cumprir as exigências sanitárias e evitar mistura com outros grãos.
O Ministério da Agricultura informa que o sorgo brasileiro destinado à China precisa estar livre de pragas quarentenárias, não pode ser misturado com outros grãos ou materiais estranhos e deve atender às regras chinesas de qualidade e segurança.
Com a expansão da segunda safra, a adaptação da cultura às condições climáticas e a abertura de novos mercados, o sorgo passa a ocupar mais espaço no planejamento agrícola.
No Tocantins, onde o grão já vinha avançando como alternativa ao milho, a evolução das exportações poderá definir se a cultura seguirá concentrada em janelas tardias ou passará a ocupar uma parcela maior das lavouras.











