Carne bovina: com Brasil e Austrália fora do jogo, China abre janela rara para Argentina e Uruguai
Com a saída temporária dos dois gigantes exportadores mundiais, os vizinhos da América do Sul ganham território livre para avançar no mercado chinês
O esgotamento das cotas de exportação do Brasil e da Austrália abriu, por tempo limitado, uma janela para carne bovina da Argentina e do Uruguai avançar no mercado da China, praticamente sem concorrência, destaca artigo divulgado pela Câmara de Bolsa de Rosário (BCR).
Segundo os analistas, com o preenchimento das cotas de salvaguarda dos dois principais fornecedores mundiais de carne bovina, os preços da carne argentina começam a ganhar força em território chinês.
Nos últimos 15 dias, a referência FOB da proteína destinada à China passou de US$ 7.500 para US$ 7.700 por tonelada, enquanto um mês atrás estava em torno de US$ 7.200, compara a BCR.
Um ano atrás, neste mesmo período, a China pagava US$ 5.400 por tonelada, em um contexto de oferta abundante e forte concorrência entre os diferentes fornecedores, relembra os analistas.
Ou seja, o preço atual de US$ 7,7 mil/tonelada representa um aumento anual de 42,5% para o mesmo produto e mercado, evidenciando a forte dependência chinesa das importações.
“Trata-se de uma verdadeira mudança de cenário para a carne bovina na China, que pode se sustentar enquanto o Brasil permanecer fora desse mercado”, observa a BCR.
Segundo os analistas, para a Argentina, isso significa a abertura de uma janela comercial muito breve, mas extremamente valiosa, para ingressar nesse mercado praticamente sem concorrência.
“Trata-se de um período que provavelmente não ultrapassará 60 dias e que a Argentina deveria aproveitar enquanto os importadores chineses não voltarem a concentrar suas necessidades de abastecimento no Brasil”, sugerem os analistas locais.
Queda nas importações totais da China
Vale lembrar que, até julho/26, os dados da Alfândega chinesa mostravam o Brasil como principal fornecedor, com mais de 1 milhão de toneladas importadas e participação de 58% das compras totais. Na sequência vinham Argentina, com 15%; Austrália, com 12%; e Uruguai, com 5%.
Em agosto/26, os dados preliminares divulgados pela Alfândega mostram um total de importações de carnes e miúdos — sem desagregação por tipo de carne — de 447 mil toneladas. O volume representa uma queda de 4% em relação a julho e o menor resultado desde dezembro de 2025.
Especificamente em relação à carne bovina, diz a BCR, as entradas de agosto/26 já não deveriam incluir lotes provenientes da Austrália, cuja cota foi esgotada em julho/26.
No caso do Brasil, considerando os embarques realizados durante julho/26 para o mercado chinês, já se observava uma queda abrupta de quase 50% na comparação mensal, para apenas 82.700 toneladas embarcadas.
Em agosto, relata a BCR, os embarques brasileiros de carne bovina despencaram outros 80%, para apenas 16.100 toneladas no mês.
Na avaliação dos analistas, as próximas semanas serão um teste para determinar até que ponto a China poderá continuar consumindo os estoques acumulados nos primeiros meses do ano.
Dados de mercado mostram que agosto/26 registrou a terceira queda mensal consecutiva nos estoques de carne bovina armazenados em câmaras frigoríficas na China.
A partir de agora, o cenário apresenta elevado grau de incerteza, diz a BCR. “Além de quanto tempo os estoques poderão ser mantidos, no Brasil já se avalia uma possível mudança de rota, com o objetivo de prolongar os tempos de trânsito e antecipar tanto a operação local quanto o fechamento de negócios com os importadores chineses”, observam os analistas da bolsa argentina.

O fato é que, diz a BCR, a partir de novembro/26, essa vantagem de exclusividade compartilhada por Argentina e Uruguai começará novamente a se fechar, dando lugar a uma concorrência maior, não apenas do Brasil, mas também da Austrália, importante fornecedora de cortes de maior qualidade.
O tempo, portanto, é limitado, alertam os especialistas. “A Argentina tem pela frente uma janela comercial excepcional que não deveria desperdiçar: não apenas para completar volumes, mas também — e fundamentalmente — para avançar sobre segmentos de maior valor comercial e capturar o máximo valor possível desse cenário excepcional de demanda”, recomendam os analistas da BCR, em clima de torcida.

Fonte : Bolsa de Comércio de Rosário












