Mercado de café começa o ano travado e desafia o produtor rural

A cautela domina as mesas de negociação enquanto o cafeicultor prioriza o caixa para despesas imediatas.

Mercado de café começa o ano travado e desafia o produtor rural
Ilustrativa

O produtor de café já conhece bem o silêncio que paira sobre as mesas de negociação logo após as festas de fim de ano. É aquele intervalo onde a poeira ainda está baixando e o mercado parece respirar fundo antes de tomar um fôlego novo. No café, esse começo de temporada não fugiu à regra, mas trouxe um ingrediente extra: a ausência quase completa de quem quer vender e a timidez de quem quer comprar. Se você olhar para o pátio da cooperativa ou para o telefone, vai perceber que o ritmo está diferente, quase como se o setor estivesse segurando a mão antes de bater o martelo em lotes maiores.

Essa paralisia momentânea não acontece por acaso. O que estamos vendo agora é um cabo de guerra silencioso. De um lado, o comprador está testando os níveis de preço, tentando entender até onde a corda estica. Do outro, o cafeicultor, escaldado por safras anteriores e atento aos custos de produção que não dão trégua, prefere o refúgio do armazém. A verdade é que, com poucos compradores ativos no mercado spot nacional, as negociações estão restritas a volumes que mal movimentam as planilhas das grandes tradings.

O motivo por trás da ausência de vendedores

Quando o pesquisador do Cepea aponta que o vendedor está ausente, ele está falando de uma estratégia de sobrevivência financeira que a gente vê muito no dia a dia da roça. O produtor só está entregando o que é estritamente necessário. Sabe aquele boleto do adubo que vence agora ou a folha de pagamento da manutenção que não pode esperar? É para isso que os poucos lotes comercializados serviram nestes últimos dias. É a venda de subsistência do fluxo de caixa, longe de ser uma estratégia de desova de safra ou de aproveitamento de picos de preço.

Não tem segredo: ninguém quer entregar café barato quando a incerteza sobre o clima e sobre o tamanho da próxima colheita ainda é o assunto principal nas rodas de conversa. O cafeicultor aprendeu, muitas vezes do jeito mais difícil, que a liquidez imediata pode custar caro se a margem de lucro for sacrificada logo no início do ano. Por isso, a porteira para fora está fechada para grandes negócios, aguardando uma sinalização mais clara das bolsas internacionais e do câmbio, que continua sendo o fiel da balança para os nossos preços internos.

A expectativa para a retomada do dinamismo

Existe uma luz no fim do túnel para quem está esperando o mercado andar. A expectativa é que o mercado comece a ganhar maior dinamismo apenas a partir da próxima semana. Isso acontece porque o planejamento das torrefadoras e dos exportadores precisa ser renovado. O estoque de curto prazo de quem compra também acaba, e é aí que a necessidade de reposição força uma movimentação mais agressiva. Para entender melhor como essas janelas de oportunidade se formam, vale acompanhar as análises detalhadas no site do Cepea, que mostram como o comportamento histórico do preço se ajusta nessa transição de quinzena.

O dinamismo que se espera não vem apenas de uma vontade de negociar, mas de uma necessidade logística. O café precisa fluir. Mas, até que isso aconteça, o produtor está certíssimo em manter a calma. Se o custo de carregamento do estoque permitir, segurar o grão agora é uma forma de proteção. O mercado spot, por definição, é muito volátil e, em momentos de baixa liquidez, qualquer pequena venda pode puxar a média para baixo, o que não interessa para quem está com o custo de produção batendo no teto.

Manter o café no armazém em tempos de incerteza não é apenas teimosia, é gestão de risco para quem conhece o valor de cada saca colhida.

É importante considerar que o manejo da lavoura continua exigindo investimento. E é aqui que o bicho pega. Se o mercado está travado, o produtor precisa ser um mestre na gestão financeira para não ser obrigado a vender no pior momento. Planejar as compras de insumos e escalonar as vendas é o que diferencia quem fecha o ano no azul de quem apenas empata o jogo. Estamos falando de um jogo de paciência onde quem tem a informação técnica na mão sai na frente.

Como se posicionar enquanto o mercado não destrava

Enquanto o volume de negócios não ganha corpo, o foco deve ser total na porteira para dentro. É o momento de revisar os números, ajustar o maquinário e observar as previsões meteorológicas com lupa. Se o mercado ganhar o ritmo esperado na próxima semana, você precisa estar com a sua estratégia de preço alvo muito bem definida. Não adianta o preço subir e você não saber qual é o seu ponto de equilíbrio.

  • Avalie o custo de oportunidade de segurar o café por mais 30 ou 60 dias.
  • Monitore a movimentação dos terminais portuários; o gargalo logístico pode influenciar o prêmio pago no interior.
  • Não tome decisões baseadas apenas no vizinho; cada fazenda tem uma realidade de custo e uma necessidade de caixa diferente.

O cenário para o café é de monitoramento constante. Esse começo de ano devagar é um reflexo natural de um setor que está amadurecendo e não aceita mais qualquer oferta. A liquidez vai voltar, as ordens de compra vão aparecer com mais força, e o importante é que, quando esse momento chegar, o produtor esteja preparado para negociar com autoridade, defendendo a rentabilidade do seu negócio. O café brasileiro tem qualidade e o mundo precisa dele; essa é a nossa maior força na mesa de negociação.

Fique de olho nos fundamentos. O mercado de café é soberano, mas ele respeita quem tem paciência e dados para embasar a venda. A próxima semana promete ser o divisor de águas para este primeiro mês do ano, trazendo o movimento que faltava para dar tração às cotações nas principais praças produtoras do país. Até lá, o conselho é um só: pé no chão, olho no mercado e cautela na caneta.

Agronews