Câmbio pressiona os preços internos do algodão

O mercado brasileiro de algodão em pluma atravessa um momento de desconexão em relação às tendências internacionais

Câmbio pressiona os preços internos do algodão
Ilustrativa

Tradicionalmente, o preço da fibra no mercado interno tende a espelhar as oscilações das bolsas estrangeiras, como a de Nova York (ICE). No entanto, o cenário atual apresenta um paradoxo: enquanto os indicadores externos operam em alta, o valor doméstico da pluma segue em trajetória descendente. Este fenômeno é explicado por uma combinação de fatores macroeconômicos e dinâmicas sazonais que redefinem a competitividade do agronegócio nacional.

O principal vilão — ou protagonista, dependendo da perspectiva — para a sustentação dos preços internos tem sido a desvalorização do dólar frente ao Real. No setor de commodities, o câmbio atua como o principal mecanismo de transmissão de valor. Quando a moeda americana perde força, a paridade de exportação sofre uma redução imediata. Em termos práticos, isso significa que o valor recebido pelo exportador brasileiro, ao converter suas vendas internacionais para a moeda local, torna-se menos atrativo.

Essa retração do dólar desestimula o fechamento de novos contratos para o mercado externo, aumentando a oferta disponível no mercado interno e, consequentemente, pressionando as cotações para baixo nas praças brasileiras. Mesmo com a demanda interna tentando absorver parte dessa oferta, a pressão cambial tem se mostrado mais forte do que a capacidade de sustentação dos preços.

A influência do petróleo no mercado global

Curiosamente, o cenário no exterior é de otimismo. As cotações internacionais do algodão têm registrado avanços significativos, impulsionadas principalmente pela valorização do petróleo. Como o algodão compete diretamente com as fibras sintéticas (que são derivadas de combustíveis fósseis, como o poliéster), o encarecimento do petróleo torna a pluma natural mais competitiva industrialmente.

Entretanto, esse “fôlego” vindo de fora não tem sido suficiente para anular o impacto do câmbio no Brasil, evidenciando que a moeda nacional está ditando o ritmo das negociações atuais.

Panorama das Safras

Enquanto os departamentos comerciais lidam com as oscilações financeiras, o campo mantém sua atividade intensa. No Brasil, o foco absoluto dos produtores está na finalização da semeadura da safra 2025/26. As janelas de plantio são cruciais para garantir a produtividade e a qualidade da fibra, e o monitoramento climático segue como a principal variável de risco para o ciclo que se inicia.

Simultaneamente, o mercado já começa a olhar para o horizonte de 2026/27 no Hemisfério Norte. Produtores nos Estados Unidos e em outras regiões produtoras já iniciaram o planejamento para a próxima temporada. As projeções iniciais indicam que a safra 2026/27 poderá ser menor do que a atual.

Essa expectativa de oferta restrita no futuro a médio prazo costuma servir como um suporte para os preços internacionais, mas, para o produtor brasileiro, o benefício dessa alta dependerá, novamente, de um equilíbrio mais favorável entre o Real e o Dólar nos próximos meses. 

AGRONEWS