EUA: novas diretrizes alimentares reforçam o papel dos lácteos na saúde

Documento oficial inverte a lógica da pirâmide alimentar e reconhece o valor nutricional de leite, queijos e proteínas animais. Atualização é considerada a mais relevante em décadas e impacta produção, indústria e consumo.

EUA: novas diretrizes alimentares reforçam o papel dos lácteos na saúde
Ilustrativa

A Casa Branca transmitiu uma mensagem direta ao consumidor americano: “Comam comida de verdade.” O lançamento das Dietary Guidelines for Americans 2025–2030 marca o que vem sendo descrito como o ajuste mais significativo da política federal de nutrição em décadas, com uma mudança clara na hierarquia dos alimentos recomendados e impactos diretos para a cadeia produtiva de proteínas e laticínios.

Estamos finalmente colocando a comida de verdade de volta no centro da dieta americana. Comida de verdade que nutre o corpo, restaura a saúde, abastece a energia e constrói força”, afirmou a secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins.

Segundo ela, a nova abordagem também valoriza a capacidade produtiva do campo americano: "Essa mudança também se inclina para a oferta de alimentos abundantes, acessíveis e saudáveis já disponíveis através dos incríveis agricultores e pecuaristas da América. Ao produzir leite, criar gado e cultivar frutas, vegetais e grãos saudáveis, eles detêm a chave para resolver nossa crise nacional de saúde”.

A nova pirâmide alimentar praticamente inverte o modelo difundido desde os anos 1990No topo estão as proteínas, com recomendação de ingestão entre 1,2 e 1,6 gramas por quilo de peso corporal por dia, acima dos 0,8 gramas sugeridos anteriormente. Em seguida aparecem laticínios e gorduras saudáveis, depois vegetais e frutas. Grãos integrais passam a ser limitados a duas a quatro porções ao dia, enquanto açúcares adicionados e óleos altamente processados devem ser evitados.

nova pirâmide nutricional americana
Fonte: USDA.

De acordo com Sigrid Johannes, da diretora executiva de assuntos governamentais da National Cattlemen’s Beef Association, para indivíduos que sigam o limite superior de proteína, representa um aumento de 100% na ingestão diária recomendada de proteína em relação às diretrizes anteriores.

 

Lácteos ganham protagonismo

Um dos pontos de maior relevância para a cadeia leiteira é o reconhecimento explícito dos laticínios em todos os níveis de gordura. Pela primeira vez, a orientação nutricional federal dos EUA apoia o consumo de leite integral, queijos e manteiga sem a distinção negativa associada ao teor de gordura.

Uma das mensagens principais que estão transmitindo aos consumidores é: coma laticínios e coma laticínios em todos os níveis de gordura — isso inclui leite integral, queijo e manteiga”, destacou Matt Herrick, da International Dairy Foods Association (IDFA), classificando o momento como “um momento decisivo significativo”.

Na mesma linha, Gregg Doud, presidente e CEO da National Milk Producers Federation, reforçou que o reconhecimento simultâneo da gordura e da proteína oferece uma leitura mais fiel do valor nutricional dos lácteos“Nem todas as gorduras são criadas iguais e, como as diretrizes reconhecem isso, os benefícios dos laticínios são melhor refletidos nesta iteração das diretrizes”, afirmou.

O documento também mantém a recomendação de três porções diárias de laticínios, destacando que os produtos lácteos são fonte relevante de proteína, gorduras, vitaminas e minerais. Esse reposicionamento dialoga diretamente com o comportamento do consumidor. Segundo Herrick, o queijo cottage atingiu seu maior nível de consumo desde a década de 1980, impulsionado pela busca por alimentos ricos em proteína.

“Os consumidores estão olhando para os rótulos mais do que nunca e tentando encontrar alimentos mais limpos e menos processados. Os laticínios se encaixam nesse perfil”, disse Herrick. “A maioria dos produtos tem apenas um punhado de ingredientes e todos são ricos em proteína”.

Esse movimento também se reflete na indústria. Entre 2022 e 2025, cerca de US$ 8 bilhões foram investidos em novas plantas de processamento, com previsão de mais US$ 11 bilhões até 2028, acompanhando o crescimento da demanda por proteínas lácteas e gorduras consideradas saudáveis.

Proteína animal no centro do debate

As novas diretrizes também reforçam o papel da carne e das aves como fontes nutricionais estratégicas. Para Julie Anna Potts, presidente do Meat Institute, a mensagem ficou mais simples e objetiva. “Evidências científicas robustas demonstram que a carne é uma fonte rica em proteínas de alta qualidade, vitaminas essenciais e minerais altamente biodisponíveis que apoiam a saúde humana ao longo da vida”, afirmou.

As diretrizes também recomendam que alimentos densos em nutrientes, incluindo carnes, sejam introduzidos precocemente na alimentação infantil e mantenham papel central ao longo da infância.

Frutas, vegetais e alimentos minimamente processados

Apesar do destaque às proteínas e aos laticínios, frutas e vegetais continuam ocupando espaço central. O documento recomenda três porções diárias de vegetais e duas de frutas, priorizando o consumo “em sua forma original”.

As diretrizes também orientam a redução de alimentos ultraprocessados, bebidas açucaradas e excesso de sódio, ponto elogiado pela Associação Médica Americana. “As diretrizes afirmam que a alimentação é um remédio e oferecem orientações claras que pacientes e médicos podem usar para melhorar a saúde”, disse Bobby Mukkamala.

Críticas e controvérsias

Nem todos os especialistas concordam com o novo direcionamento. Marion Nestle, ex-professora da Universidade de Nova York, afirmou que o incentivo ao consumo de proteína não faz sentido, argumentando que os americanos já consomem quantidades suficientes. Segundo ela, "Com exceção da excelente recomendação de reduzir o consumo de alimentos altamente processados, que não eram particularmente comuns naquela época, essas diretrizes nos remetem às dietas da década de 1950, quando todos consumiam muita carne e laticínios e não se preocupavam muito com vegetais, e as doenças cardíacas eram desenfreadas".

A Associação Americana do Coração também demonstrou preocupação. Embora tenha apoiado a ênfase em frutas, vegetais e grãos integrais, alertou: "Estamos preocupados com o fato de que as recomendações sobre o tempero com sal e o consumo de carne vermelha possam, inadvertidamente, levar os consumidores a exceder os limites recomendados de sódio e gorduras saturadas, que são os principais fatores de risco para doenças cardiovasculares."

Implicações para a cadeia produtiva

Além do aspecto nutricional, as diretrizes sinalizam impactos estruturais no sistema alimentar. Rollins antecipou mudanças nos padrões de estoque do varejo vinculado ao SNAP (Supplemental Nutrition Assistance Program, programa federal de auxílio alimentar dos EUA) , com o objetivo de ampliar o acesso a alimentos integrais e saudáveis. “Isso significa que opções mais saudáveis estarão ao alcance de todas as famílias americanas, independentemente das circunstâncias”, afirmou.

No segmento de grãos e oleaginosas, entidades como a American Soybean Association e a National Oilseed Processors Association defenderam o papel da soja e dos óleos vegetais, ressaltando que o farelo é componente essencial das dietas de bovinos, aves e suínos, apoiando a produção de carne, leite e ovos acessíveis.

No conjunto, as novas diretrizes alimentares dos Estados Unidos reposicionam a proteína e os laticínios no centro da alimentação, reforçando sua relevância nutricional e econômica. Para a cadeia leiteira, o documento representa não apenas um reconhecimento científico, mas também um sinal claro de alinhamento entre saúde pública, consumo e produção de alimentos considerados essenciais.

As informações são da USDA, BBCDairy Herd Managemen e Hoard's Dairyman.