Milho caro, diesel pressionado e o impacto na proteína animal
Do frete do milho ao preço da ração, a cadeia de proteína animal sente o aperto dos custos. Entenda o movimento.
Na BR-163, em Sorriso, o caminhoneiro abastece com diesel subvencionado que caiu R$ 0,35 mais barato por litro desde 1º de junho, por força de portaria do Ministério da Fazenda. A carga de milho da safrinha segue para o Porto de Paranaguá. Enquanto isso, o criador de frango no Oeste Catarinense paga frete cheio para trazer o grão de volta. Pois é. O subsídio que deveria baratear a produção de alimentos acaba empurrando a proteína animal para o lado oposto da balança.
O diesel não entra na granja. Mas está em cada etapa. Na colheita do milho em Mato Grosso, no transporte até a fábrica de ração, na distribuição do frango congelado até o açougue. E quando o barril de Brent dispara para US$ 93, movimento alimentado pela tensão entre Estados Unidos e Irã, todo o sistema range. O consumidor sente no caixa do supermercado, sem fazer ideia de que o problema começou num tanque de caminhão a milhares de quilômetros dali.
O milho responde por cerca de 70% do custo de produção de frangos e suínos, apontam levantamentos do Cepea e da ABPA. Um desequilíbrio aí derruba tudo. Se o frete sobe, e sobe porque o diesel está pressionado, a ração fica mais cara. O produtor aperta a margem. E quando a margem aperta, duas coisas podem acontecer. O preço na gôndola dispara ou o criador segura o lote e reduz a oferta. Nos dois casos, quem compra proteína paga a conta.

O diesel que não se vê no prato, mas pesa na ração
Subvenção de R$ 0,35 por litro de diesel. O governo federal justifica que é para segurar o custo do frete agropecuário. Só que o benefício chega primeiro a quem planta grãos, não a quem compra ração. O produtor de proteína animal, seja frango, suíno, leite ou ovos, paga o frete mais caro e não recebe subsídio nenhum. No fim das contas, a política pública que deveria aliviar o setor acaba criando uma distorção silenciosa. Quem produz proteína financia indiretamente o escoamento da commodity que vai espremer sua margem.
O boletim logístico da CONAB, divulgado em maio de 2026, não deixa margem para dúvidas de que o diesel aparece como o principal fator de pressão sobre o frete agropecuário. E não para por aí. A BR-163, principal corredor de escoamento da safra mato-grossense, concentra o tráfego justamente nos meses de colheita. Mais caminhões na estrada, mais diesel consumido, mais custo repassado. O produtor de proteína no Sul e no Sudeste, que depende do milho de MT para formular ração, absorve esse custo sem nenhuma contrapartida.
Mas a verdade é que o problema não é só o diesel. É a geografia. O milho produzido no Médio-Norte de MT, como Sorriso, Lucas do Rio Verde e Sinop, tem preço físico na casa dos R$ 42 por saca, segundo o IMEA. A paridade de exportação, que considera o valor no porto descontado o frete, gira em torno de R$ 34 por saca. A diferença de mais de R$ 8 é o custo do transporte. E é exatamente essa diferença que o produtor de proteína paga quando compra milho dessas praças. O grão mais barato do estado está onde o frete mais pesa. Uma armadilha logística que aperta a porteira para dentro.

Safrinha recorde, mas o milho chega mais caro à ração
A safrinha de milho em Mato Grosso está em plena colheita, e o volume colhido supera o ciclo anterior. Mais grão, em tese, significa preço menor. Mas a teoria esbarra na estrada. O frete elevado segura o escoamento, e o produtor local prefere estocar a vender pelo valor da paridade de exportação. O resultado é que o milho disponível continua caro para quem precisa comprar, e quem precisa comprar é o produtor de proteína animal.
O IMEA mostra um mapa revelador. As praças do Médio-Norte, justamente onde o milho é mais abundante, registram os menores preços. Sorriso, Lucas do Rio Verde, Sinop. É ali que o grão deveria estar mais acessível. Mas o custo do frete para levar esse milho até as fábricas de ração do Sul anula qualquer vantagem. O que sobra para o criador de frango é um preço de milho que não cai, mesmo com safra recorde batendo na porteira.
A conta final chega ao consumidor. O ovo, o frango, a carne suína e o leite. Todos carregam no preço o custo do frete de um milho que saiu de Mato Grosso com diesel subvencionado, mas que chegou à granja com margem espremida. É um ciclo em que ninguém ganha de fato. O produtor de proteína tira leite de pedra entre o custo da ração e o preço que o mercado paga. O consumidor sente no bolso e não entende por que o frango não baixa.
No fim das contas, a cadeia de proteína animal revela o que poucos enxergam. O diesel não está no prato, mas pesa em cada garfada. Enquanto o custo do frete não for tratado como parte estrutural da produção de alimentos, e não apenas como problema de logística de grãos, o produtor de proteína vai continuar sendo o elo mais fino dessa corrente. E o consumidor, o último a ser lembrado.
Agronews











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