“Consórcio deixou de ser plano B e virou estratégia no agro”, afirma especialista

Alta de 214porcento na procura por consórcios para máquinas agrícolas no Tocantins contrasta com retração do mercado nacional de máquinas e implementos.

“Consórcio deixou de ser plano B e virou estratégia no agro”, afirma especialista
ilustrativa

                                                                                                    (Foto: John Deere/ Divulgação).

Enquanto a indústria brasileira de máquinas agrícolas enfrenta um dos anos mais desafiadores da última década, produtores rurais do Tocantins têm recorrido cada vez mais ao consórcio como alternativa para manter os investimentos na modernização das propriedades.

Levantamento da administradora Embracon aponta que o volume de créditos comercializados para aquisição de máquinas e equipamentos agrícolas no estado saltou de R$ 4,6 milhões para R$ 14,6 milhões no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 214% em relação ao mesmo período do ano passado. No mesmo intervalo, o número de cotas comercializadas aumentou 25%.

O movimento ocorre na contramão do desempenho da indústria nacional. Dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) mostram que o faturamento do setor recuou 21,3% no primeiro semestre deste ano. As vendas de tratores caíram 11,5% e as de colheitadeiras registraram retração de 31,1%, reflexo da menor rentabilidade do produtor rural, da restrição ao crédito e do adiamento de investimentos.

Para a superintendente regional da Embracon, Bárbara Nascimento, esse cenário ajuda a explicar o crescimento da procura pelo consórcio, mas não é o único fator.

“O cenário de juros mais altos sem dúvida atua como um catalisador. Quando o financiamento tradicional encarece, o produtor busca alternativas para continuar investindo. Mas o que estamos vendo no Tocantins vai além de uma reação momentânea. O agricultor e o pecuarista deixaram de olhar para o consórcio apenas como plano B e passaram a utilizá-lo estrategicamente para a renovação programada da frota, garantindo previsibilidade de caixa sem pagar os juros elevados do crédito convencional.”

Segundo ela, o consórcio vem sendo incorporado ao planejamento financeiro das propriedades, permitindo organizar investimentos de médio e longo prazo sem comprometer a liquidez do negócio.

Menor custo e maior poder de negociação

Em um cenário de margens mais apertadas na atividade agropecuária, a previsibilidade dos custos passou a ser um fator decisivo na escolha da modalidade de aquisição.

De acordo com Bárbara Nascimento, além da ausência de juros, o produtor contemplado passa a negociar como comprador à vista, ampliando seu poder de barganha junto às concessionárias.

“No consórcio, o produtor paga apenas a taxa de administração. Quando é contemplado, ele tem poder de compra à vista, o que garante melhores condições de negociação. Em um momento em que cada economia faz diferença, isso contribui para preservar a saúde financeira da fazenda.”

Máquinas mais modernas lideram a procura

O crescimento de 214% no volume financeiro, diante de um aumento de 25% na quantidade de cotas, também indica uma mudança no perfil dos investimentos.

Segundo a executiva, os produtores estão direcionando recursos para equipamentos de maior valor agregado e tecnologia embarcada.

“O produtor tocantinense está buscando tecnologia de ponta para ganhar eficiência. As máquinas mais procuradas são colheitadeiras de alta capacidade, tratores de alta potência, plantadeiras de precisão, pulverizadores autopropelidos e caminhões utilizados no escoamento da safra.”

Eficiência para enfrentar custos elevados

Na avaliação da Embracon, a mecanização continua sendo um dos principais caminhos para manter a competitividade, mesmo em um ambiente de crédito mais restrito.

“Em tempos de margens espremidas e insumos caros, a mecanização e a agricultura de precisão deixaram de ser diferenciais e passaram a ser uma condição para continuar competitivo. O desafio é modernizar a fazenda sem comprometer a liquidez do negócio, e o consórcio surge justamente como essa solução de equilíbrio.”

A expansão da agricultura no Tocantins e em toda a região do MATOPIBA também contribui para esse movimento.

“O Tocantins é hoje uma das principais fronteiras agrícolas do país e atrai produtores altamente profissionalizados. A demanda por máquinas modernas acompanha esse crescimento e reforça a necessidade de soluções financeiras que permitam levar mais tecnologia ao campo.”

Tendência é de continuidade

Mesmo diante da retração do mercado nacional de máquinas agrícolas, a expectativa da Embracon é que a procura por consórcios continue crescendo ao longo do segundo semestre e em 2027.

Segundo Bárbara Nascimento, o planejamento da renovação da frota deve se consolidar como prática cada vez mais comum entre os produtores.

“Quem se programa com antecedência consegue utilizar estratégias como os lances para antecipar a contemplação nas épocas ideais de plantio e colheita, pagando menos pelo maquinário. O consórcio continuará sendo um dos motores da modernização do agro tocantinense.”