Algodão brasileiro ganha mercado e pode ter novo referencial

Algodão brasileiro conquista indústrias globais;

Algodão brasileiro ganha mercado e pode ter novo referencial
ilustrativa

O algodão brasileiro passou de cerca de 7% para mais de 35% das exportações globais na última década, consolidando o país entre os principais fornecedores mundiais da fibra. O avanço, analisado durante o Congresso Brasileiro do Algodão, foi acompanhado por investimentos em produção e cadeia, mas também trouxe novos desafios, entre eles a busca por uma referência de preços própria.

O avanço da participação brasileira foi discutido por Blake McClendon, líder global de algodão da Bunge, durante jantar promovido em 23 de setembro pela ORÍGEO, joint venture entre Bunge e UPL. O encontro reuniu 200 grandes cotonicultores durante o Congresso Brasileiro do Algodão, em Belo Horizonte (MG).

Segundo dados divulgados pela organização do evento, o crescimento da participação brasileira foi sustentado por investimentos que ampliaram a produção, modernizaram a cadeia e ajudaram a consolidar a fibra nacional entre as compras de grandes indústrias têxteis.

McClendon destacou que a principal transformação está no papel desempenhado pelo Brasil no abastecimento mundial.

Durante séculos, os Estados Unidos ocuparam a posição de principal fornecedor adicional de algodão. Agora, segundo o executivo, esse papel passou a ser exercido pelo Brasil. “Ao longo dos últimos anos, o setor também construiu demanda para a fibra nacional, que passou a integrar de forma recorrente as compras de indústrias têxteis de países como China, Índia, Vietnã, Turquia, Paquistão e Indonésia. O mundo aprendeu a usar o algodão brasileiro, aprendeu a gostar de usar o algodão brasileiro, e o resultado é que ele não é mais uma origem de nicho”, pontuou.

Apesar do avanço da produção e da demanda, McClendon avalia que a formação de preços não acompanhou a transformação registrada pelo setor nas últimas duas décadas.

Atualmente, o algodão brasileiro é majoritariamente precificado e protegido por operações de hedge com referência na ICE, bolsa que negocia contratos futuros utilizados como referência internacional. “O algodão brasileiro tem hoje uma das infraestruturas de origem mais sofisticadas do mundo, mas seu principal benchmark está fisicamente ligado ao algodão americano”, disse o líder global de algodão da Bunge.

O desafio ganha importância à medida que Brasil e Estados Unidos passam a responder a condições próprias de oferta e demanda.

A questão também afeta as negociações antecipadas da produção brasileira. McClendon explicou que, quando uma trading compra algodão com dois anos de antecedência, precisa se proteger contra possíveis oscilações de preços até o momento da entrega.

O problema aparece quando as condições de oferta e demanda do algodão brasileiro e do norte-americano seguem caminhos diferentes. “Quando vocês nos pedem para comprar o algodão com dois anos de antecedência, precisamos precificar esse risco em algum lugar. Todo risco que o comerciante não consegue proteger, no fim, chega ao preço pago ao produtor”, alertou.

Como alternativa, o executivo apresentou a possibilidade de criação de uma referência de preços própria para o algodão brasileiro, complementar à ICE e vinculada às características da produção nacional.

A proposta utilizaria mecanismos já conhecidos nos mercados futuros, como entrega física, armazéns certificados e classificação independente da qualidade.

Nesse modelo, o algodão brasileiro seria o produto de referência e o Porto de Santos, no litoral de São Paulo, funcionaria como ponto de entrega. “Não precisamos reinventar aquilo que já funciona. Precisamos mudar apenas dois pontos – qual algodão e onde: algodão brasileiro, classificado pelo sistema da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), entregue em armazéns certificados.”

Segundo McClendon, a proposta teria o objetivo de criar uma alternativa capaz de refletir os riscos específicos da produção e da comercialização do algodão brasileiro. “O Brasil construiu a produção, construiu toda a infraestrutura e conquistou as indústrias têxteis ao redor do mundo. A próxima infraestrutura a ser construída pode ser a de preços”, concluiu.

O encontro com os produtores ocorreu durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão e integrou a agenda da ORÍGEO. A programação teve como foco a aproximação com agricultores, a troca de conhecimento e as discussões sobre oportunidades para a atividade. O conceito “O fio que conecta histórias, legado e futuro” foi adotado pela empresa para destacar a trajetória das famílias produtoras e as decisões relacionadas aos próximos ciclos do setor.

Além dos debates técnicos e de mercado, o jantar contou com um show exclusivo da cantora Paula Fernandes.

Para Roberto Marcon, CEO da ORÍGEO, o fortalecimento da atuação da Bunge no algodão amplia as possibilidades de apoio aos produtores dentro da proposta integrada da empresa. “Com a aquisição da Viterra, a Bunge fincou posição nesse mercado e tem uma ambição bastante grande que é, juntamente conosco, ser líder em algodão no Brasil. Para isso, estamos trazendo uma série de ferramentas, desde financiamento até soluções de comercialização. Do outro lado, olhando para dentro da fazenda, temos a UPL desenvolvendo produtos e inovação para a cultura. Queremos conectar essas diferentes frentes para oferecer ao cotonicultor soluções que acompanham as necessidades do negócio dentro e fora da porteira.”