Pedidos de crédito para fertilizantes disparam 190porcento e chegam a R$ 2,9 bilhões no BNDES

Alta dos custos provocada pela guerra no Oriente Médio pressiona empresas, que buscam recursos para manter a produção e o fornecimento ao campo

Pedidos de crédito para fertilizantes disparam 190porcento e chegam a R$ 2,9 bilhões no BNDES
ilustrativa

Foto: Divulgação/Rio Grande Fertilizantes

Empresas do setor de fertilizantes solicitaram R$ 2,9 bilhões em financiamentos ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entre julho e o início de outubro de 2026. Os pedidos foram apresentados por meio do programa Brasil Soberano 3, que oferece condições de crédito mais favoráveis a negócios afetados pelas tarifas comerciais dos Estados Unidos e pelos impactos da guerra no Oriente Médio.

De acordo com informações publicadas pela Globo Rural, a procura pelos recursos aumentou 190% em comparação com a etapa anterior do programa, encerrada em junho, quando os pedidos do setor somaram aproximadamente R$ 1 bilhão.

Até 1º de outubro, 62 empresas haviam solicitado financiamentos. Desse total, R$ 1,7 bilhão foi aprovado em 65 operações, mas apenas R$ 200 milhões haviam sido efetivamente liberados. Entre as companhias com maiores solicitações estão a multinacional americana Mosaic e a brasileira Fertipar.

A maior parte dos pedidos foi apresentada por empresas misturadoras, responsáveis por combinar matérias-primas utilizadas na fabricação de fertilizantes. Regionalmente, a demanda está concentrada no Sul e no Sudeste, seguidos pelo Centro-Oeste, Nordeste e Norte.

De acordo com José Luis Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, os financiamentos são destinados principalmente ao capital de giro, permitindo que as empresas mantenham suas atividades mesmo diante do aumento dos custos de produção.

Guerra no Oriente Médio pressiona preços dos fertilizantes

A instabilidade internacional tem provocado aumentos nos preços de matérias-primas utilizadas pela indústria de fertilizantes. Um dos principais impactos ocorre no mercado de enxofre, insumo empregado na fabricação de fertilizantes fosfatados.

Segundo o Sindicato Nacional das Indústrias de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), o preço do enxofre passou de aproximadamente US$ 435 por tonelada, em janeiro, para US$ 1,2 mil por tonelada em meados de 2026.

O encarecimento ocorreu após o início do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, no fim de fevereiro, que ampliou as incertezas sobre o abastecimento internacional de insumos.

O diretor-executivo do Sinprifert, Bernardo Silva, explicou que as dificuldades enfrentadas pela indústria não estão restritas aos fertilizantes fosfatados. A instabilidade também afeta produtos como a ureia, enquanto os produtores rurais enfrentam juros elevados, restrições financeiras e aumento dos pedidos de recuperação judicial.

A combinação desses fatores pressiona tanto a indústria quanto os agricultores, que dependem dos fertilizantes para manter a produtividade das lavouras.

Financiamentos podem chegar a 20 anos

O Brasil Soberano 3 disponibiliza diferentes modalidades de financiamento para empresas consideradas estratégicas, incluindo fabricantes e misturadoras de fertilizantes.

Entre as possibilidades estão recursos para capital de giro, aquisição de máquinas e equipamentos e investimentos destinados à ampliação da capacidade produtiva.

Nas operações diretas destinadas a grandes empresas, os financiamentos para capital de giro podem ter prazo de até 60 meses, incluindo 12 meses de carência.

Para projetos de investimento, o prazo pode chegar a 240 meses, equivalentes a 20 anos, com carência de até 48 meses e taxas de juros entre 7,9% e 11,8% ao ano.

Dos R$ 1,7 bilhão já aprovados pelo BNDES até 1º de outubro, aproximadamente R$ 1,5 bilhão ainda aguardava liberação. Segundo Gordon, as operações precisam passar pela etapa de contratação antes dos desembolsos, previstos para os próximos meses.

Brasil importa mais de 85% dos fertilizantes utilizados no campo

A dependência brasileira de fertilizantes importados também está entre as preocupações do governo federal. Atualmente, mais de 85% dos produtos utilizados na agricultura nacional são adquiridos no mercado externo.

Essa condição deixa o agronegócio brasileiro exposto às oscilações internacionais de preços, aos custos logísticos e a eventuais interrupções no fornecimento.

Por esse motivo, o BNDES também analisa projetos voltados à ampliação da produção nacional de fertilizantes. A proposta é atender às necessidades financeiras imediatas das empresas e financiar investimentos que possam reduzir a dependência das importações nos próximos anos.

O programa Brasil Soberano foi criado em 2025 para apoiar empresas prejudicadas pelas tarifas comerciais adotadas pelo governo americano. Em 2026, passou a contemplar setores afetados economicamente pela guerra no Oriente Médio.

Mosaic anunciou paralisações de unidades no Brasil

Entre as empresas que procuraram o BNDES está a Mosaic, uma das principais companhias do mercado de fertilizantes.

Em julho, a multinacional anunciou paralisações temporárias ou parciais em cinco plantas industriais brasileiras, além da redução da produção em duas unidades de mistura. As medidas foram adotadas em meio ao aumento dos custos do enxofre.

Segundo a Globo Rural, a empresa informou que consultou o BNDES sobre as linhas de crédito disponíveis e que acompanha iniciativas governamentais voltadas ao desenvolvimento do setor, como o Profert e a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

A companhia também mantém conversas com o governo federal sobre alternativas para garantir o fornecimento de matérias-primas a preços competitivos.

A Fertipar, que também aparece entre as empresas com maiores pedidos de financiamento, foi procurada pela reportagem original, mas não se manifestou.

O BNDES informou que a relação completa das empresas beneficiadas será divulgada após a contratação das operações e a realização dos primeiros desembolsos