A alta do soro do leite pode encarecer as fórmulas infantis?
A recente alta no preço global do soro de leite acendeu um alerta no setor alimentício.
O aumento dos preços das proteínas do soro do leite levanta uma preocupação: a alta pode chegar ao consumidor de leite em pó infantil? E o avanço da demanda por proteínas em categorias como nutrição esportiva pode pressionar indiretamente produtos essenciais?
Os preços dispararam nos últimos meses, impulsionados principalmente pelo crescimento da demanda global por proteínas e por limitações na capacidade de processamento. Segundo dados do Rabobank, o soro de leite em pó subiu 47% entre outubro de 2025 e julho de 2026, de € 900 para € 1.320 por tonelada. No mesmo período, o WPC80, concentrado de proteína do soro de leite com 80% de proteína, avançou 120%, de € 12.500 para € 27.500 por tonelada. Já o WPI, isolado com 90% de proteína, teve alta de 59%, chegando a € 32.500 por tonelada. A caseína ácida subiu 29%.
A pressão está relacionada ao avanço do consumo de proteínas, impulsionado tanto pela tendência de maior ingestão proteica quanto pela busca por saciedade e preservação da massa muscular entre usuários de medicamentos GLP-1. Segundo Tom Booijink, especialista sênior em laticínios para Europa e África da RaboResearch Food & Agribusiness, as proteínas de soro de alta qualidade tiveram forte valorização nos últimos dois meses.
E as fórmulas infantis?
O soro do leite é um ingrediente importante das fórmulas infantis. Enquanto o leite bovino apresenta aproximadamente 80% de caseína e 20% de proteína do soro, as fórmulas buscam uma proporção próxima de 40:60, respectivamente, para se aproximar do perfil proteico do leite materno.
A proteína do soro também se destaca pela qualidade nutricional e pela presença de aminoácidos essenciais, como o triptofano. Na nutrição infantil, pode ser utilizada em diferentes formatos, incluindo soro desmineralizado, WPC, WPI e proteína hidrolisada.
O soro desmineralizado começou a ser utilizado em produtos nutricionais infantis na década de 1960, após o desenvolvimento de tecnologias para remover minerais em excesso. Desde então, tornou-se um ingrediente importante dessas formulações.
Apesar dessa dependência, o impacto da atual disparada de preços sobre as fórmulas tende a ser baixo a moderado, segundo Booijink. O principal gargalo não está na disponibilidade do soro bruto, mas na capacidade de transformá-lo em ingredientes com maior concentração proteica, como WPC80 e WPI.
Esses processos exigem tecnologias de ultrafiltração e microfiltração, além de investimentos elevados. A capacidade disponível é limitada, o que ajuda a explicar por que os preços dos ingredientes mais concentrados avançaram muito mais do que os do soro de leite em pó.
Margens podem limitar o repasse
Outro fator é a rentabilidade. O setor de fórmulas infantis é reconhecido por apresentar margens elevadas, o que pode permitir que parte do aumento dos custos seja absorvida pelos fabricantes.
No entanto, isso não significa que o consumidor esteja protegido. Um relatório de 2025 da Autoridade de Concorrência e Mercados (CMA) do Reino Unido apontou que a baixa pressão competitiva por preços contribui para que aumentos de custos sejam repassados rapidamente ao consumidor.
Dados recentes mostram que o preço das fórmulas infantis no Reino Unido aumentou até 45% entre janeiro e março de 2026. Um estudo da Universidade de Swansea também apontou impactos financeiros sobre algumas famílias.
Nutrição esportiva sente primeiro
É na nutrição esportiva que o impacto da alta tende a ser mais direto. As proteínas de soro de alta qualidade são componentes essenciais de muitos produtos, como barras, shakes e substitutos de refeição. Historicamente, os fabricantes conseguiram absorver parte dos aumentos graças às margens da categoria, mas essa capacidade tem limites.

A nutrição pró-idade, voltada às necessidades nutricionais de pessoas mais velhas, também pode ser afetada. Embora utilize proporcionalmente mais caseína e menos proteína do soro do que a nutrição esportiva, a categoria também está exposta à valorização das proteínas lácteas.
A saída está na capacidade de processamento
Com a demanda por proteínas em alta, a expansão da capacidade de processamento aparece como a principal alternativa para aliviar a pressão sobre os preços. Para Booijink, limitar artificialmente os preços poderia reduzir o incentivo aos investimentos necessários para ampliar essa capacidade e, consequentemente, prolongar a escassez.
Na nutrição infantil, a possibilidade de reduzir a quantidade de proteína do soro também é limitada. A composição das fórmulas é rigorosamente regulamentada, incluindo o teor total de proteína e o perfil dos aminoácidos essenciais.
Assim, embora a alta do soro de leite possa pressionar os custos das fórmulas infantis, o maior impacto tende a ficar nas categorias que dependem de proteínas altamente processadas, como WPC80 e WPI. No curto prazo, o principal desafio parece estar menos na oferta de soro bruto e mais na capacidade de processamento.
Artigo escrito por Lisa Buckingham, publicado no Dairy Reporter, resumido, traduzido e adaptado pela Equipe MilkPoint.












