Saiba quais são as principais causas dos acidentes ferroviários
Interferência de terceiros lidera ocorrências na malha de cargas; passagens em nível estão entre os principais pontos de risco
Imagem gerada por IA
A interferência de terceiros é a principal causa dos acidentes nas ferrovias brasileiras de carga. Auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), com base em dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), mostra que essa categoria respondeu por 73,54% das 3.133 ocorrências registradas na malha ferroviária federal concedida entre dezembro de 2020 e março de 2025. Problemas na via permanente aparecem em seguida, com 16,53%, enquanto falhas no material rodante responderam por 4,63%.
A interação entre veículos, pedestres e a ferrovia é uma parte relevante desse quadro. Retirados da categoria de interferência de terceiros os registros relacionados a vandalismo, sabotagem e suicídio ou tentativa de suicídio, a participação ainda chega a 69,96% dos acidentes analisados pelo TCU.
O problema ganha relevância principalmente nos cruzamentos entre os sistemas rodoviário e ferroviário. Em 2025, foram registrados 327 acidentes em passagens em nível, com 96 feridos e 22 mortes. O número de ocorrências graves nesses cruzamentos, no entanto, caiu 31% entre 2021 e 2025, segundo a ANTT.

Terceiros estão no centro das ocorrências
A presença de veículos, pedestres ou outros obstáculos sobre os trilhos representa um risco particularmente elevado pelas características da operação ferroviária. Uma composição de carga pode transportar milhares de toneladas e necessita de uma distância muito maior que um veículo rodoviário para conseguir parar diante de um obstáculo.

Na auditoria, o TCU aponta que atropelamentos e abalroamentos, somados, representaram mais de 70% dos acidentes ferroviários registrados no período analisado. O tribunal também identificou a imprudência de condutores e pedestres como uma das principais causas das ocorrências em passagens em nível.
Passagens em nível concentram riscos
Os cruzamentos entre ruas ou rodovias e ferrovias são um dos pontos mais sensíveis dessa interação. Nas colisões entre trens e veículos analisadas pelo TCU, Curitiba (PR) registrou 80 ocorrências, seguida por Paranaguá (PR), com 70, Ponta Grossa (PR), com 33, São Francisco do Sul (SC), com 27, e Apucarana (PR), com 25.
Curitiba concentra ainda nove das 45 passagens em nível classificadas pela ANTT entre as mais críticas do país.
A presença de municípios paranaenses entre os locais com maior número de ocorrências chama atenção para um dos desafios das ferrovias que atravessam áreas urbanizadas: a exposição decorrente da quantidade de cruzamentos e da circulação de veículos e pedestres nas proximidades dos trilhos.
Onde acontecem mais acidentes
Considerando todas as causas, a Rumo Malha Sul concentrou o maior número de acidentes no período analisado pelo TCU, entre dezembro de 2020 e março de 2025, com 915 ocorrências. Na sequência aparecem Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), com 589; MRS, com 556; Rumo Malha Paulista, com 407; e Ferrovia Transnordestina Logística (FTL), com 342.
Quando consideradas as vítimas fatais, o quadro muda. A MRS registrou o maior número de mortes no período, com 176 óbitos, seguida pela Rumo Malha Sul, com 102, Rumo Malha Paulista, com 77, e FCA, com 51. No total, os 3.133 acidentes contabilizados pelo TCU deixaram 476 mortos e 1.042 feridos.
Os números absolutos, porém, não permitem concluir quais ferrovias são mais ou menos seguras. Uma concessão com maior movimentação de trens está também mais exposta à ocorrência de acidentes. Por isso, a ANTT utiliza como indicador de segurança o número de acidentes por milhão de trem-quilômetro, relacionando as ocorrências à distância efetivamente percorrida pelas composições.
A própria agência ressalta que, com o aumento do transporte, o número absoluto de acidentes pode crescer proporcionalmente ao tráfego sem que haja necessariamente piora no índice de segurança. Extensão da malha, intensidade da operação e características dos trechos atravessados também ajudam a explicar as diferenças entre as concessões.
No recorte por município, Curitiba liderou com 166 acidentes, 30 mortes e 67 feridos. Juiz de Fora (MG) registrou 68 acidentes, mas 33 mortes e 29 feridos. Barra Mansa (RJ) somou 56 ocorrências; Ponta Grossa, 55; e Pinhais, 38.
Acidentes diminuíram no longo prazo
Apesar dos pontos críticos, os indicadores mostram melhora da segurança ferroviária no longo prazo. O índice utilizado pela ANTT, que relaciona os acidentes à distância percorrida pelos trens, caiu de 15,7 ocorrências por milhão de trem-quilômetro em 2010 para 8,41 em 2024.
Em 2025, entretanto, houve reversão parcial dessa trajetória, com o indicador subindo para 10,03 acidentes por milhão de trem-km. Já o número de acidentes com óbitos recuou: passou de 116 em 2024 para 88 em 2025, queda de 24%.
A evolução dos indicadores reforça a necessidade de observar diferentes métricas para avaliar a segurança ferroviária. Além do número de ocorrências, entram nessa análise a circulação dos trens, a extensão e as características da malha, a exposição a áreas urbanas e a gravidade dos acidentes.
Mobilização mira comportamento nas travessias
A interação entre ferrovia e sociedade está no centro do Movimento Nacional de Segurança Ferroviária, promovido por nove empresas, com apoio da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF) e da ANTT.
A iniciativa prevê cerca de 190 ações de conscientização em mais de 120 cidades de 13 estados e do Distrito Federal. Segundo a ANTF, foram registrados 2.685 acidentes de trânsito envolvendo operações ferroviárias entre janeiro de 2021 e dezembro de 2025.
O foco nas travessias acompanha o que mostram as estatísticas: embora problemas na via permanente e no material rodante também apareçam entre as causas, a interferência de terceiros permanece como o principal desafio para a redução dos acidentes nas ferrovias de carga brasileiras.
Agência Transporte Moderno













