Plano Safra 2026/27 recebe críticas do agro por crédito, dívidas e seguro rural

Entidades defendem mudanças para ampliar a efetividade da política agrícola

Plano Safra 2026/27 recebe críticas do agro por crédito, dívidas e seguro rural
ilustrativa

Entidades do agronegócio avaliaram que o pacote amplia os recursos, mas ainda deixa desafios estruturais sem solução, como o endividamento rural, o acesso ao crédito e o fortalecimento do seguro rural. Foto: Ricardo Stuckert

30deJunhode2026ás16:00

O Plano Safra 2026/27, lançado nesta terça-feira (30) com R$ 525,1 bilhões em recursos para médios e grandes produtores rurais, provocou críticas de representantes do agronegócio.

Apesar do aumento de R$ 9 bilhões em relação ao ciclo anterior e da redução de até 1,5 ponto percentual nas taxas de juros, as entidades avaliam que o pacote não enfrenta questões estruturais do setor, como o elevado endividamento dos produtores, as dificuldades de acesso ao crédito e a fragilidade do seguro rural.

Faesp cobra política agrícola de longo prazo

A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) avalia que o crescimento dos recursos não acompanha a realidade enfrentada pelos produtores.

Para a federação, a ausência de medidas voltadas à reestruturação das dívidas acumuladas nos últimos anos reduz a capacidade do crédito de estimular novos investimentos e tende a ampliar a pressão financeira sobre quem está no campo.

"O principal problema não é apenas o volume de recursos, mas a falta de medidas concretas para enfrentar o crescente endividamento do setor", afirmou a Faesp.

A entidade também defende que o Brasil substitua os anúncios anuais do Plano Safra por uma política agrícola permanente, com regras estáveis e previsibilidade para os investimentos.

De acordo com a federação, sem uma solução para o passivo acumulado, novos financiamentos deixam de impulsionar a produção e passam a ampliar as dificuldades financeiras dos produtores.

Outro ponto apontado pela Faesp é a fragilidade da política de seguro rural. Segundo a entidade, a cobertura ainda alcança apenas uma pequena parcela da área cultivada, o que mantém os produtores expostos a riscos como secas, enchentes, geadas e incêndios.

Para a federação, o fortalecimento do programa é essencial para ampliar a segurança da atividade e reduzir os impactos de eventos climáticos extremos.

Sistema FAEP questiona acesso ao crédito

No Paraná, o Sistema FAEP também demonstrou preocupação com as condições de acesso ao crédito.

Embora reconheça o valor recorde anunciado pelo governo, a entidade avalia que os recursos terão impacto limitado se os produtores continuarem encontrando dificuldades para contratar financiamentos.

A federação também critica o patamar dos juros e os sucessivos cortes no orçamento destinado ao seguro rural. Além disso, lembra que defendia, ao lado de outras entidades paranaenses, um Plano Safra de R$ 670 bilhões para a agricultura empresarial e familiar, acima dos R$ 610 bilhões anunciados pelo governo.

"De nada adianta divulgar um Plano Safra com valor recorde se não há mecanismos para que isso se transforme em investimentos no campo. Não passa de pura ilusão, de um número no papel", afirmou o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.

Segundo Meneguette, mesmo com a redução das taxas em relação ao ciclo anterior, o custo do crédito permanece elevado diante de um cenário marcado por margens de lucro reduzidas, perdas climáticas recorrentes e aumento do endividamento rural.

"O setor passou por sucessivas quebras de safra, acumula endividamento e precisa de fôlego para continuar produzindo, não de novos passivos que possam comprometer ainda mais sua capacidade de investimento", disse.

A renegociação das dívidas, para o Sistema FAEP, deveria integrar a política agrícola anunciada pelo governo.

A entidade também alerta que parte dos recursos disponibilizados no Plano Safra anterior sequer foi contratada, o que, na sua avaliação, demonstra que ampliar o volume de crédito não basta enquanto persistirem as restrições de acesso aos recursos.

O fortalecimento do seguro rural também aparece entre as prioridades da entidade.

Na avaliação do Sistema FAEP, ampliar a cobertura do programa é fundamental para reduzir os riscos climáticos, dar mais segurança aos produtores e fortalecer as operações de crédito.

Aprosoja MT critica distribuição dos recursos

A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), por sua vez, concentrou as críticas na composição dos recursos do Plano Safra.

A entidade destaca que, embora o volume total tenha aumentado, houve redução nas verbas destinadas às linhas de custeio e comercialização, justamente as mais utilizadas pelos produtores durante o ciclo produtivo.

"O Plano Safra 2026/27 tem R$ 8,9 bilhões a mais no total, mas R$ 29,8 bilhões a menos em custeio e comercialização. Ao mesmo tempo em que reduziu juros em algumas linhas, o governo diminuiu o volume destinado ao giro da safra. Resultado? Crédito com custo menor em parte das operações, mas com menos recurso disponível justamente para plantar, conduzir e comercializar a produção", afirmou o presidente da Aprosoja MT, Lucas Costa Beber.

A associação também argumenta que o reajuste do Plano Safra ficou abaixo da inflação acumulada no período, o que representa perda real na capacidade de financiamento.

Segundo a entidade, ampliar o volume nominal de recursos não é suficiente se os produtores continuam enfrentando restrições para acessar o crédito e renegociar seus passivos.

Diagnóstico converge entre as entidades

Apesar de concentrarem as críticas em aspectos diferentes do programa, Faesp, Sistema FAEP e Aprosoja MT convergem em um diagnóstico: o aumento dos recursos e a redução dos juros representam um avanço, mas não serão suficientes sem medidas para reestruturar o endividamento rural, fortalecer o seguro rural e ampliar o acesso efetivo ao crédito.

Na avaliação das entidades, esses fatores serão determinantes para que os recursos anunciados pelo governo se convertam em investimento, produção e maior competitividade para o agronegócio brasileiro.